COMPADRE TOTA VAI AO CIRCO
Postado em05 Jul 2014 19 23 HISTORIAS DE MERICO




Ainda contabilizava-se o apurado da excelente safra de algodão daquele ano, quando Mericó recebeu a visita de um circo. Instalou-se no largo do mercado, disputando espaço com os feirantes.

Em meio à paisagem acinzentada daqueles dias, com sua lona listrada, seu pisca-pisca e  suas bandeirolas esvoaçantes, constituiu um festival de cores, alegrias e encantamentos, principalmente, para a meninada.

À tardinha, encabeçada por um palhaço equilibrando-se em um monociclo, a pequena trupe saía rua acima rua abaixo divulgando o espetáculo e distribuindo entradas grátis com um carimbo no braço dos meninos que respondessem mais alto ao pregão cantado  através de um megafone roufenho:

- Hoje tem espetáculo?

- Tem, sim senhor!

- Às sete horas da noite?

- Tem sim senhor!

- E o palhaço o que é?

- É ladrão de mulher!

Antoniano, rapazote de doze anos, assistindo da janela a passagem do alegre grupo, inquietava-se e sentia o coração bater forte na ânsia de realizar seu antigo sonho de ir a um circo. Se pudesse, misturava-se à turba, mas a mãe não deixava. Para ela, aquilo era coisa de gente amundiçada e de menino sem pai e sem mãe.

Apertando no bolso as cédulas que ganhara do avô por ajudá-lo numa apanha de algodão, só lhe restava lutar contra a eternidade dos minutos até à hora do espetáculo.  Enquanto isso, relembrava a fala do tio, homem de pouco estudo, mas muito rodado no mundo:

- Cumpade Tota, o bom do circo é o primeiro dia. O resto é só repetimento.

Pode até parecer estranho o tratamento de compadre usado entre tio e sobrinho. Mas era isso mesmo: Desde pequeno Antoniano herdara do pai a mania de chamar todo mundo de compadre ou comadre. Para as pessoas dali, aquilo soava como um gracejo carinhoso, e elas respondiam-lhe da mesma forma. Assim, todos em Mericó o chamavam pela alcunha de Tota, precedida do título de compadre.

- E então, compadre Tota, vai ou não vai ver o circo?

- Ora se vou, cumade Jaqueline! Vou ser é o primeirim da fila!

- Então, posso passar aqui para irmos juntos?

- Passe mesmo, cumade, que a gente vai.

Jaqueline era uma daquelas vizinhas que os longos anos de convivência e a afinidade integram à família. Para os padrões da época, já era uma moça velha. Diziam que, por se achar muito bonita e por ter feito o segundo grau em Cuité, escolheu de mais os pretendentes e acabou naquela situação: já passando dos vinte e quatro anos e nada de casamento.

Compadre Tota por algum tempo alimentou uma paixão pela vizinha, de quem também fora aluno. Mas isso já havia passado e agora a tinha como uma espécie de irmã mais velha sem, todavia, abrir mão de admirar aquelas formas maduras e bem torneadas emolduradas pelos negros e longos cabelos que lhe valeram a alcunha de Perla dos pobres. Claro que ninguém ousava chamá-la assim na sua frente, mas comentavam a sua semelhança com a cantora paraguaia e isso a deixava, discretamente, envaidecida.

Passadas aquelas horas intermináveis, lá estavam os dois na primeira fila de cadeiras, compadre Tota e comadre Jaqueline, coladinhos à borda do picadeiro.

Abriram-se as cortinas, desfilaram os artistas, depois veio um número de palhaços, um de trapezistas, malabaristas, engolidor de fogo... Tudo era sons, cores, emoções, deslumbramento... Antoniano olhava de vez em quando para a amiga com os olhos embaçados de alegria, ela retribuía-lhe o olhar com um sorriso e ele voltava a mergulhar naquele mundo de fantasias e encantamentos entremeado de medos: Medo do trapezista cair sobre ele, do fogo incendiar o circo, do atirador de faca errar o alvo e acertar sua bela assistente...

O espetáculo já passava de uma hora quando o silêncio que se seguia aos aplausos foi quebrado por um rufar de tambores e, em seguida, pelo apresentador anunciando solenemente a maior, a mais importante, a mais assustadora, a mais perigosa, a mais,  mais... A atração que iria fechar com chave de ouro aquele grandioso espetáculo:

- Senhoras e senhores! E agora, ele que é o homem mais corajoso do mundo! O único capaz de desafiar os mais perigosos e ferozes leões africanos e que, hoje, irá enfrentar a mais temível de todas as feras, trazida diretamente do coração da África selvagem! Para os aplausos de vocêêêêêês, Mister Rolidey!

Antoniano nem prestara atenção num grande quadrado ao seu lado, coberto por uma lona. Terminada a fala do apresentador, mister Rolidey ainda fazia reverências à platéia quando dois ajudantes, com um puxão brusco e combinado arrancaram a lona protetora deixando à mostra a jaula do leão.

Vendo-se tão perto daquela fera, a ponto de quase sentir-lhe o bafo quente, o jovem sentiu um frio na espinha dorsal e encolheu-se na cadeira. Sério, com o coração em disparada, segurou a mão da amiga enquanto o domador, entrando na jaula, fez tudo o que não se deve e, em tese, não se pode fazer com um leão. Ora acariciava-lhe a juba fazendo-o cochilar, ora irritava-o fazendo rugir, mostrar as presas e erguer as patas como se fosse devorá-lo.

O medo já havia diminuído quando as luzes se apagaram, ouviu-se um novo rufar de tambores e um arco de fogo, suspenso no meio da jaula, passou a concentrar a atenção do público. Com um gesto teatral, o domador fez estalar três vezes um chicote e o leão, tal qual cachorro desconfiado, caminhou cabisbaixo para a extremidade posterior da jaula de onde olhava, ora para o círculo de fogo, ora para o domador, ora para o público, especialmente para ele, Antoniano, bem a sua frente.

Não demorou e Mister Rolidey, em mais um gesto ensaiado estufou o peito, ergueu o chicote e olhando para o leão com a pose de toureiro espanhol, fez estalar mais alto o chicote e gritou:

- Olé!

Num piscar de olhos, o jovem viu a enorme fera lançar-se no ar e atravessar o círculo de fogo voando de boca e patas abertas na sua direção. Fechou os olhos, sentiu o mundo rodar e, encolhendo-se todo, esperou o desfecho fatal daqueles segundos de terror.

Vencida a interminável fração de minuto, os aplausos ecoaram de todos os lados. Abriu os olhos. As luzes estavam acesas e o domador, já no picadeiro, curvava-se diante do público. O leão estava quieto em um canto da jaula. Suspirou aliviado por se ver em seu lugar, ao lado da amiga, vivo, ileso... Apenas trêmulo, pálido...

Todos se levantaram para sair. Jaqueline levantou-se, mas ele permaneceu sentado, desfigurado, com gotículas de suor espalhadas pelo rosto.

- Compadre Tota, foi muito bom, mas já acabou. Já podemos ir embora.

Fingindo ignorar o que dizia a amiga, manteve a cabeça baixa e o olhar fixo no leão.
Impaciente com a demora,  a moça tocou-lhe o ombro e voltou a chamá-lo:

- Vamos embora, compadre Tota!

Ele, lentamente ergueu o rosto em sua direção e quando seus olhos cruzaram-se havia em seu olhar um misto de súplica, tristeza, desespero... Sentindo uma pontada no coração, ela curvou-se, acariciou seu cabelo e com um olhar materno e perscrutador tentou descobrir o que se passava com o jovem amigo:

- Compadre Tota, o que foi, meu menino?

- Cumade Jaqueline... Começou falar, mas teve de fazer uma pausa para desatar o nó da garganta e controlar a crescente vontade de chorar.

- Fale compadre! O que está havendo, pelo amor de Deus?

- Tô todo obrado, cumade.



Aldenir Dantas


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