UM REI EM MERICÓ
Postado em12 Jul 2014 22 15 HISTORIAS DE MERICO



    

Ele apareceu nos primeiros tempos de Mericó. A cidade há pouco havia deixado de ser vila. Dizia chamar-se Luís de Aragão. Sua conversa, nas décadas em que ali morou, fora a mínima possível. Falava o estritamente necessário. Nem o hábito de dar bom dia ou boa tarde tinha, cumprimentava as pessoas com um menear de cabeça.

O estranhamento em relação a ele começara com a sua chegada. Vindo nunca se soube de onde, quando indagado a este respeito, simplesmente respondia:

- Venho de longe, de muito longe.

Raramente se via pessoas mudando-se de, ou para, Mericó. E quando isso acontecia os pertences ocupavam, no máximo, um carro de boi ou uma mula. Mas ele chegara servido por uma tropa de cinco mulas possantes, alugadas, todas bem carregadas.

Na falta de um hotel, hospedou-se num quarto improvisado na casa de dona Severa, mãe de dona Branca. Comprando, nas proximidades da cidade, dois hectares de terra, deixou muitos boquiabertos pela vultosa quantia paga por um cabeço pedregoso coberto de vegetação rala e alguns pés de jurema.

Contratando dois pedreiros da região e alguns ajudantes, dedicou-se com afinco à construção da sua casa, no topo do monte, alicerçada nas rochas. Se por um lado todos achavam que era um louco, por outro, mantinham-se calados porque tinha dinheiro, pagava bem aos trabalhadores e os comerciantes ganharam um bom freguês.

Muitas foram as dificuldades enfrentadas pelos construtores na execução da obra. Era diferente de tudo que haviam feito. Logo descobriram que não se tratava de uma casa, mas, de um castelo, como aqueles dos livros de História. A sala era arredondada e sua parede mais alta do que o restante da construção terminava em uma torre parecida com a da capela local. O quarto, também arredondado, com o desnível do rochedo, ficava no alto necessitando de uma escada para acessá-lo. Apenas a cozinha e a dispensa tinham o formato com o qual estavam acostumados. E tiveram outros desafios como uma espécie de sótão no alto da torre com minúsculas janelas para a cidade e portas arqueadas. Mas todos foram pacientemente vencidos, mediante orientações do patrão.

Meses se passaram enquanto, sob olhares curiosos, a desengonçada construção erguia-se do alto dos pedregulhos, encantando a alguns, assustando a outros, mas, sobretudo, levantando um questionamento unânime: “De onde esse homem vem e de onde tira tanto dinheiro, para viver sem trabalhar e gastando tanto com essa casa esquisita?”

Alguns moradores locais, principalmente fazendeiros, que gostavam de exercer o controle sobre todos os acontecimentos da cidade, por mais de uma vez procuraram o delegado para interrogar o forasteiro. Mas este não cedeu às pressões, sempre com as mesmas justificativas:

- É um homem pacato, educado, pelo visto, de boa família e até hoje só nos trouxe benefícios. Compra no nosso comércio, emprega gente daqui... A lei não tem o que fazer. Melhor é deixar o cidadão em paz.

Concluído o castelo que, pelas condições gerais em que fora construído (mão de obra simples, local inóspito de difícil acesso e muito improviso) ficara apresentável, o trabalho final fora isolá-lo com uma mistura de cerca e muralha cerrada por pesado portão.

Instalara-se ele na sua nova moradia, contratando para os serviços domésticos dona Lelé que, para criar os filhos abandonados pelo pai, lavava roupa, cuidava de doente, ajudava dona Severa na cozinha, não impondo limites a nenhum trabalho que lhe garantisse o sustento da prole.

- Qual é mesmo o seu nome, senhora? Perguntou quando a candidata ao emprego adentrou a sala, embasbacada com o que via.

- Mai o sinhô me aconhece da casa de dona Severa! Me chamo Lelé.

- Lelé não é nome, senhora. E a senhora deve ter um.

- Me adiscuipe, dotô. – Falou, baixou a cabeça envergonha e continuou - Meu nome é Oleriana, mai é qui ninguém me chama assim.

- Não me chame de doutor, porque não o sou. E se seu nome é este, é assim que a senhora será tratada, aqui. Receberá uma paga mensal pelos serviços prestados, mas há uma série de exigências que terá de cumprir. A primeira delas é: o que faço da minha vida particular no meu castelo, o que eu tenho, como eu vivo, quem eu sou, enfim, tudo o que ocorrer dentro destas paredes é assunto do meu reino, da minha pessoa e ninguém deve saber.

Após uma manhã de orientações, quanto aos detalhes da vida no castelo e da posição de dona Oleriana dentro dele, o patrão disse quanto lhe pagaria pelo seu trabalho e ela, só não pulou no seu pescoço e lhe deu um grande abraço, porque já aprendera como cumprimentá-lo, como dirigir-se a ele, como pedir ou agradecer. É que o seu salário mensal seria quase igual a tudo o que recebia durante um ano inteiro com seu trabalho rotineiro.

O assédio dos mericoenses sobre dona Oleriana tornou-se uma constante: Todos queriam saber como era lá castelo, o que o homem fazia, quem, afinal, era ele... Quando ia às compras, sempre vestida com uma roupa especial, exigida pelo patrão, era um problema livrar-se de tantas perguntas. Mas pouco a pouco foi ela assumindo a postura da profissional bem paga que era e, simplesmente, respondia:

- Só posso dizê qui ele é um homi bom. Me paga preu trabaiá lá e dou graça a Nossinhô purisso.

Com o passar dos anos o povo acostumara-se, passando a ver aquela situação como a de um velho louco e cheio de dinheiro que ninguém sabia de onde tirara. A hipótese mais provável, defendida pela maioria, era a de que teria arrancado uma gorda botija.

Desde que entrara em seu castelo, jamais saíra dele. O máximo que fazia, e de longe as pessoas viam, era caminhar nas manhãs e tardes por entre as plantas que fizera crescer entre suas muralhas. Com a idade avançada e demonstrando crescente esgotamento físico, dona Oleriana por mais de uma vez sugerira uma consulta ao doutor que, a cada dois meses, passava por Mericó. Na sua última tentativa, foi ela surpreendida por preocupante revelação:

- Minha serva fiel, terá sempre a minha gratidão pela devoção a mim dispensada, mas não preciso de médico. Tome um banco. Concedo-lhe permissão para sentar a minha frente e ouvir umas orientações muito importantes.

Pouco à vontade, pois aquela era a primeira vez que se sentaria em frente do patrão, ela assim o fez e passou a ouvi-lo.

- Um emissário visitou-me, muito cedo, esta manhã. Partirei em oito dias. Com tantos curiosos, ao longo de décadas querendo me ver e entrar no meu castelo, concederei ao povo desta cidade que me acolheu a oportunidade de me visitar. Avise a todos que, de hoje a oito dias, às oito horas da manhã, estarei na minha sala recebendo os que desejarem ouvir as minhas palavras de despedida.

- Majestade, cuma pensa em ir simbora, assim? Aduentado, fraco....

- Como serva fiel, apenas cumpra as minhas ordens.

Mesmo contrariada, dona Oleriana espalhou a notícia pela cidade. No dia e hora marcados, muita gente, pela primeira vez, cruzou aquelas rústicas muralhas. O prefeito, primeiro de Mericó, alguns comerciantes, muitos populares e até o padre integraram a comitiva.

Recebendo-os, dona Oleriana fez entrar na sala, primeiramente, o prefeito e o padre que ficaram desnorteados com o que viram. No lado extremo da sala, em uma cadeira de espaldar alto, revestida de veludo vermelho, repousava serenamente o castelão. Tinha barbas longas e brancas e vestia-se de tal maneira que, por respeito, não levou os dois a caírem numa gargalhada. Parecia uma fantasia carnavalesca. De forma tosca e confeccionada por mãos inábeis com cetim, fitas, galões e outros aviamentos, envergava, ele, uma vestimenta tipicamente real e ainda trazia na cabeça uma lustrosa coroa dourada feita de latão e numa das mãos um rebuscado cetro, no mesmo estilo.

Um tecido vermelho estendia-se, em forma de tabete, da porta de entrada à cadeira onde se achava sentado. Gravuras e quadros com figuras reais, cenas mitológicas e feitos guerreiros decoravam toda a parede da sala.

Os visitantes, intuitivamente, curvaram-se perante o anfitrião que retribuiu a reverência, mas permaneceu calado até a sala ficar lotada. Não cabendo todos no local, pessoas penduravam-se nas janelas e se esticavam do lado de fora tentando enxergar alguma coisa.

Segurando o cetro com a mão esquerda, levantou ele a direita, como se estivesse a saudar e pedir silêncio à audiência e, serenamente, dirigiu-se a esta.

- Senhores, senhoras, sejam muito bem vindos ao reino de Aragão. É triste um rei fechar os olhos para o mundo sem deixar um herdeiro que lhe ocupe o trono. Meu reinado chegou ao fim. Aqui deixo a minha gratidão ao povo desta pacata cidade e a minha vontade expressa em testamento.

Fez uma pausa, em seguida desenrolou um papel tirado do bolso da túnica real, enquanto as pessoas se entreolhavam tão bestificadas com a cena que não conseguiam esboçar uma palavra, sequer. Com as mãos trêmulas e a voz entrecortada, passou ele à leitura.

- Para Oleriana, minha leal serva de décadas, deixo o que me restou do meu tesouro. Que tenha ela o direito a uma velhice tranquila como recompensa a sua fidelidade para comigo. À prefeitura, deixo o meu castelo. Que seja transformado numa escola para crianças. Que estas paredes, estas muralhas e esta torre passem, doravante, a escutar o sorriso e a voz dos filhos e netos que não tive.

- Mas senhor... Tentou iniciar uma frase o prefeito, comovido com o que ouvira.

- Senhor não, prefeito. Majestade. – Corrigiu o prefeito, fez longa pausa e com a voz cada vez mais fraca e entrecortada, concluiu: - E aqui termina o solitário, pacífico e longo reinado do Rei Luís de Aragão, o discreto.

Após falar, sua face pálida tornou-se branca e, deixando cair o cetro, fechou os olhos, inclinou levemente a cabeça e, serenamente, morreu. E assim, chegou o fim de um quixotesco, longo e pacífico reinado.

O tempo, auxiliado pelo descuido do poder público e pela superstição do povo, não demorou muito para transformar em ruínas mal assombradas o desengonçado castelo. Todos evitavam passar pelo local, especialmente próximo do meio dia ou da meia noite.

Via-se coisas do outro mundo por lá.


Aldenir Dantas


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