O TERCEIRO CAVALHEIRO, A QUEM ELA DEU A MÃO
Postado em20 Jul 2014 13 43 HISTORIAS DE MERICO


 Ensaio de Figura ao Ar Livre, 1886, Monet.



Não sou um criador de histórias. Apenas, as conto. Se criasse, há muito teria construído  um personagem para compartilhar o rico e incompreendido mundo de dona Dodó. Talvez por me achar sempre com um pé na lucidez e o outro procurando onde pisar, dentre todas as mericoenses, Eudóxia  é a que mais admiro. E contar parte da sua história fixou ainda mais em minhas lembranças a imagem daquela mulher bonita, sensível, inteligente e alheia ao quadrado traçado pela sociedade onde, tais quais passarinhos engaiolados, se locomovem as pessoas normais.

Mas, eis que numa daquelas tardes preguiçosas de domingo, estava eu deitado numa rede, na varanda, folheando uma revista, quando alguém tocou a campainha.  Era um senhor alto, magro, de farta barba branca, chapéu de feltro e, mesmo demonstrando jovialidade nos gestos e na fala, aparentava mais de oitenta anos. Abri o portão, convidei-o a entrar, sentar e meu olhar indagador arrancou dele a resposta à pergunta que nem cheguei a fazer.

- Meu nome não lhe diz nada. Cheguei às terras de Mericó quando delas você só guardava lembranças. Tomando conhecimento do seu interesse em registrar as histórias daquele povo e, principalmente, da sua notória simpatia por uma das suas moradoras, de passagem por estas paragens resolvi trazer-lhe algumas informações do seu interesse.

Impressionaram-me as palavras daquele simpático senhor. Em poucos minutos de prosa, tratávamo-nos como amigos de longas datas. Desse sentimento e de uma agradável e reveladora conversa entre xícaras de café, extraí o que doravante narrarei, recorrendo, no entanto, ao que chamo de licença literária para fazer uso de um narrador onisciente.

***

Aquele fora mais um entardecer amarelado de Mericó, preferido por dona Dodó para passear às margens do rio, com sua sombrinha, chapéu e roupas longas e esvoaçantes, ou sentar nos lajeados para observar a correnteza, ouvir o murmúrio das pequenas cascatas e assistir o Sol se pondo, enquanto conversava com mais uma cavalheiresca companhia. Acostumadas, as pessoas nem comentavam mais estas esquisitices. Alguns chegavam a admirar a beleza daquele quadro pintado pelo alheamento às convenções. Contudo, aquele não fora apenas mais um entardecer. Logo a cidade ficara sabendo que a sua companhia não fora invisível como as demais. Tinha carne e osso.

Famoso pelo seu excesso de curiosidade, Biluca fora o decifrador do enigma.

- Pois eu vi, dona Menina, com esses ói qui a terra há de cumê. Era seu João Guarda, sim, qui tava de cunvessa cum dona Dodó.

- Menino, ele tava de passagem, falou com a mulher e tu fica aí exagerando.

- Qui nada! Eu passei foi bem mais de meia hora olhano...  Ela sentada na peda, ele im pé cum chapéu na mão, cunversano até  quase iscurecê.

- Eu sabia qui o homi era um cachacêro de primêra, mas qui era doido eu num sabia.

- Deixa disso, cumpade Zé. Isso num qué dizê qui o homi seje doido, não.

A notícia logo tomou conta da cidade e os encontros se repetiram aguçando a imaginação de alguns e a língua de outros.

- Tô cumeçano a achá qui aquilo de dona Dodó é mais severgonhice do que maluquice, cumade.

- Coisa feia mermo, cumade: se incontrá cum homi, na bêra do rio quase de noite. Mas qui aquela coitada é fraca do juízo, isso é.

- É. E mais cum cachaceiro daquele, qui só farta mermo caí morto de tanto bebê...

João Guarda chegara em Mericó transferido para assumir  o posto de agente do fisco estadual. Viúvo, acompanhado da filha de vinte e poucos anos, ocupara a casa da corrente, pertencente ao Estado, assim chamada por no passado ser dela que se controlava a corrente do posto fiscal, à entrada da cidade.

Homem bom, simples, mas afora o tempo em que trabalhava visitando comerciantes ou cuidando dos seus papéis, estava cercado de amigos de bar, bebendo, tendo muitas vezes de ser levado para casa pelos parceiros de copo. Sua vida não era ainda mais caótica porque a filha administrava a casa e cuidava dele como de um filho rebelde, trabalhoso, mas amado.

Seu João tinha alma de artista e uma sensibilidade para a música e para a poesia que, facilmente se deixava extasiar por estas. Não podia ouvir Vicente Celestino, Orlando Silva, Francisco Alves que se punha a cantar e, se ainda não tivesse bebido, começava imediatamente. Mas o seu preferido, mesmo, era Lupicínio Rodrigues. 

Chegara muitas vezes a encher os olhos de lágrimas ao ouvir ou cantar “Eu gostei tanto, tanto quando me contaram que lhe encontraram bebendo e chorando na mesa de um bar...”.

Boêmio incurável, nem o casamento conseguira arrancá-lo da avassaladora angústia romântica que o atordoava e o mergulhava mais e mais nas longas noitadas de bebedeiras.

Sóbrio, era cortês, educado, comedido e gentil nas palavras e no trato com as pessoas. Sob o efeito do álcool era teatral, patético, recitava poemas de Olavo Bilac e de quase todos os poetas românticos, cantava à capela, falava de paixões irrealizadas, e chorava como quem acaba de perder, irremediavelmente, um grande amor.  Mas nunca houve esse grande amor e, sim, uma vida de boemia desregrada, a comodidade de um casamento e aquela paixão quixotesca por um ser idealizado.

Diante da crescente boataria espalhada pela cidade, preocupada com a amiga e protegida, Côca chegou a perguntar-lhe sobre seus encontros, comentando que isso poderia não ficar bem.  A resposta foi simples e curta.

- Nada além de um amigo. Um cavalheiro, como tantos outros.

Como tantos outros, mas com o diferencial de pertencer ao mundo real. E foi esse mundo que ocupou portas e janelas numa daquelas tardes para espiar e comentar o que muitos apenas ouviram falar: dona Dodó e João Guarda, juntos, retornando do passeio. Ele com uma roupa de domingo e chapéu e ela em um dos seus costumeiros vestidos esvoaçantes, de babados, chapéu de palha coberto de rendas, luvas e sombrinha fechada servindo de apoio. Ele a conduzia pelo braço, enquanto conversavam e caminhavam calmamente,  indiferentes aos olhares.  Chegando à porta da casa, o cavalheiro, tirando o chapéu, curvou-se, beijou sua mão e despediu-se.

Mas a ousadia do casal não ficou por aí. Os passeios continuaram e ao deixá-la em casa, o amigo, aceitando convite, entrou e passou quarenta e cinco minutos cronometrados em vários relógios. Doravante, para dona Dodô, o rótulo de desavergonhamento superou o de doidice e, para seu João Guarda, o de doido superou o de beberrão.

Por ser homem, pelo posto que ocupava e pelo pouco contato que tinha com as pessoas, em geral, seu João Guarda não sentiu muita reação aos seus encontros com dona Dodó, tratado abertamente como chamego. Apenas um ou outro o evitava. Afinal, o que fazia era mais do que envolver-se com uma mulher. Era envolver-se com uma moça, solteira, sem pai e sem mãe e, mesmo madura em idade, desprovida das faculdades mentais. Para os de moral mais elevada, isso era ultrajante, imoral, e deveria ser comunicado ao delegado, ao prefeito e ao padre, para expulsarem aquele devasso da cidade.

Já com dona Dodó a situação foi diferente. Muitos do que a tratavam como pobre coitada, louca, objeto de riso e chacota, passaram a virar-lhe o rosto, chegando ao cúmulo de chamá-la a “quenga do guarda”. Ela jamais demonstrara reação a esse tipo de tratamento. Mantivera-se, como dantes, livre, decidida e altaneira no seu ir e vir.

O mesmo não ocorria com sua amiga Côca que passara a sofrer por tabela uma série de achincalhes e a ser tratada como cúmplice das coisas horríveis que, segundo a fértil imaginação do povo, aconteciam sob as quatro paredes de dona Dodó, aquela cuja loucura, no entendimento de algumas línguas afiadas, era senvergonhice e falta de homem.

Afastando-se do bar, seu João era visto apenas no exercício do seu trabalho ou na companhia de dona Dodó. Isso gerou uma ponta de inveja naqueles que usufruíam  das bebedeiras por ele financiadas, fortalecendo mais e mais os impensáveis comentários em torno do chamego que já virara mancebo entre os dois.

Côca, envolta naquela situação conflituosa, resistiu o quanto pode para não denunciar o caso às autoridades locais, mesmo não vendo nada de mal naquela relação. Pelo contrário, a amiga passara a demonstrar notório equilíbrio naqueles dias. Mas, vergada pelo peso da responsabilidade e do bem que queria à dona Dodó, após a missa conversou longamente com o padre  sobre o assunto.  Ao final de um longo e detalhado relato, para a sua surpresa, o padre apenas perguntou:

- E como está dona Eudóxia, como tem se comportado, como está a sua saúde?

- Aquelas esquisitices continuam, seu padre. Mas fora disso, parece tão bem. Cuida-se direitinho, arruma bem a casa, faz a comida... Quase não precisa da minha ajuda.

- Pois pode ir que vou chamar esse senhor para uma conversa.

E assim aconteceu...

- O senhor é um homem maduro, experiente, bem empregado, apreciador da boemia... Diga-me, senhor, o que o faz se aproximar e o que deseja dessa pobre alma lacerada pelas tragédias da vida?

- Me desculpe a ousadia de contradizê-lo, reverendo, mas Eudóxia não é uma pobre alma. Pobre alma, para mim, é o demônio, se é que ele existe, pois, voluntariamente privou-se da presença de Deus.

- Mas é claro que o demônio existe!

- Quanto à tragédia da sua vida, senhor, foi perder o amor dos entes queridos.  Mas há uma tragédia maior ocorrendo com ela, todos os dias, contra a qual todos podiam fazer algo e ninguém faz nada. Com todo o respeito, nem o senhor.

- Mas que tragédia, além dessa em que o senhor está envolvido?

- A tragédia do desamor, do descaso, da chacota, do rótulo de inútil, imprestável, louca e, agora, de rótulos mais e mais perversos. Esquecem, senhor, que ela é uma alma sensível ao belo, à natureza, à poesia, à música... Este mundo seria bem melhor se houvesse mais pessoas loucas, como ela.

- Pode ser. Até concordo. Mas isso não dá o direito de um homem, como o senhor, aproveitar-se da pureza dessa moça.  Porque não procura uma mulher, casa novamente e refaz sua vida sob as bênçãos da santa igreja católica? Uma relação de concubinato com uma, uma... deficiente mental é, algo assim, impensável. Fere gravemente a lei de Deus, meu filho...

- Pode me excomungar pelo que vou lhe dizer agora, padre, mas está aqui na garganta e não dá para segurar: Deficiência mental tem o senhor e todos os seus paroquianos que nas suas cabeças doentias criaram essa relação sórdida de concubinato entre nós.

- Meu Deus! – Falou, deu um suspiro, fez uma longa pausa e continuou - Mas, o que encontra o senhor nesta pobre mulher?

- Nunca o senhor saberá, padre, o que é conduzir uma dama perfumada, bem vestida, num passeio de fim de tarde, admirando a relva, o por do sol, o manso deslizar das águas de um riacho...  E ao mesmo tempo, falar de Bilac, de Balzac, de Victor Hugo como se fossem nossos contemporâneos...  Sabe lá, padre, o que é encontrar a sua espera, em uma sala de estar ornada de flores silvestres, uma mulher vestida de levezas e suavidades e envolta em perfumes. Nunca saberá, padre. Nem o senhor, nem os muitos que aqui vêm em busca do reino dos céus nunca saberão que o prazer maior não está em corpos físicos que se interpenetram, mas em almas que se encontram e comungam os mesmos sonhos, por mais loucos que estes possam parecer.

- Sou forçado a reconhecer que o senhor tem razão... – Mostrando-se desnorteado, fez uma pausa, retemperou-se e retomado a serenidade, continuou. - Tem toda razão, meu filho. Infelizmente, nunca saberei. Mas Deus me proporciona outros prazeres da alma. E que me perdoe Ele, mas sinto inveja do senhor. Vai, meu filho, e seja feliz como Deus quiser. Essa sua vida de desvios deve ter sido uma angustiante e dolorosa busca da tua alma. Acredito e espero que ela tenha acabado e que, doravante, vivas em paz. Vai, com a minha bênção e a de Deus.

- Quero mais do que isso, reverendo. Quero a bênção da igreja para viver com Eudóxia. Não tanto por mim, mas por ela e pela comunidade da qual fazemos parte.

O padre levantou-se e olhou demoradamente e com ares de profunda e repentina admiração para seu interlocutor. Seus olhos brilhavam e, fugindo-lhe ao controle, uma grossa lágrima lhe escorreu pela face. Faltaram-lhe as palavras. A resposta foi um caloroso e fraternal abraço.

***

Voltando à inesperada visita daquela tarde, ao narrar os acontecimentos que me permitiram organizar esta reveladora história, o meu nobre visitante e amigo retirou um lenço do bolso, enxugou os resíduos das lágrimas presentes à narrativa e, após breve silêncio, falou:

- Eudóxia morreu há cinco anos. Fomos, desajuizadamente, felizes juntos. – Sorriu, levantou-se, abraçou-me e partiu.

Aldenir Dantas


Para melhor conhecer dona Dodó, ler O ESTRANHO CASO DE DONA DODÓ, UMA MULHER AQUÉM DO SEU TEMPO. Basta procurar no índice de textos deste blog.



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