COM A NAVALHA NO PESCOÇO
Postado em03 Aug 2014 00 01 HISTORIAS DE MERICO




                                 
Dona Grace, jovem senhora de, no máximo, vinte e cinco anos e seu Etevaldo vieram morar em Mericó quando construíram a nova agência dos correios. Antigamente nem tinha prédio dos correios. A agência funcionava, precariamente, num quarto anexo à casa de Seu Zezinho do Correio, que acabara de se aposentar, quase surdo de, por dezenas de anos,  gritar ao velho e único aparelho telefônico da cidade.

Agora, sim, Mericó tinha uma pequena, mas moderna agência dos Correios e Telégrafos e dona Grace, vinda da capital, era a sua gerente.

Nunca ninguém vira uma mulher tão elegante, simpática, educada e, sobretudo, bonita por aquelas redondezas.

Seu esposo, diziam, também era amor de pessoa. Além de educado, era um católico fervoroso; jamais faltou a uma missa ou outra celebração da Santa Igreja. Logo que chegou, seu Valdo, como passou a ser popularmente conhecido, alugou um ponto em frente à praça e ali se estabeleceu no seu ofício de barbeiro. Devido ao bom tratamento dispensado à clientela, ao fato de conhecer os cortes da moda e da sua cadeira ser muito confortável, cheia de regulagens, mais parecida com uma cadeira de dentista, sua freguesia rapidamente cresceu. Até pessoas de cidades vizinhas passaram a vir a Mericó só para cortar o cabelo com seu Valdo, especialmente os jovens que queriam uns cortes mais sintonizados com a moda.

A clientela dos Correios, essa sim, foi que aumentou. Diziam que gente que nunca recebeu uma carta passou a ir lá quase todos os dias saber se tinha chegado carta. O motivo era óbvio: Dona Grace.  Uma mulher simpática, sorridente, perfumada e bonita igual àquela,  só se viu por ali em revista, cinema ou televisão.

Mas parece que, quanto menor a cidade, maiores são as janelas das casas e os olhos das pessoas que sobre elas passam boa parte do tempo, debruçadas, olhando para a vida dos outros.

E assim, tiveram início os boatos de que dona Grace andava traindo o marido com um bancário de Cuité. De fato, aquele homem, montado em reluzente lambreta, sem mais nem menos, começara a aparecer pela cidade e sempre com umas passagens demoradas pela agência dos correios.

Os boatos aumentavam a cada dia, mas por ser dona Grace uma pessoa tão cativante e por se relacionar tão bem as pessoas, ninguém parecia se importar com isso. Todos continuavam tratando-a com a mesma gentileza, respeito e cordialidade de sempre, mesmo falando às pampas na sua ausência.

Passado algum tempo, desapareceu o bancário de Cuité e começou a frequentar, também sem motivo aparente, aquela cidade, um jovem filho de um senhor de engenho das bandas do Brejo. Vinha numa camionete C10, tão nova que reluzia ao sol. Primeiramente apareceu entregando açúcar e rapadura nas bodegas, mas, depois, começou a andar e a se demorar muito pelos correios. Partindo do fato de que naquela época a única coisa que se enviava pelos correios era cartas e telegramas, jamais rapadura, açúcar e mel de engenho,  os comentários em torno dela voltaram a ocupar a conversa das comadres que, quase sempre, começavam com um já bem conhecido jargão:

- É gente muito boa e eu não tenho nada com isso... Mas Deus me perdoe se aquela dona Grace...

Passava-se o tempo, seus visitantes e admiradores mudavam e ela, de vez em quando, viajava a capital sob a alegação de ia participar de treinamentos, pela empresa.

Os comentários continuavam. E a vida também continuava sem muitas novidades até que Antoniano,  locomotiva da boemia mericoense, passou a visitar assiduamente os correios, chegando até a levar o violão e fazer momentos musicais para dona Grace.

As pessoas que já estavam se acostumando com a boataria em torno dela, acharam que daquela fora longe de mais. Todos ficaram estarrecidos.  Antoniano era tido como um grande irresponsável, preguiçoso, leviano, já havia namorado quase todas as moças da cidade e das vizinhanças e há quase dez anos enrolava uma jovem com um noivado sem fim. Mas foi isso mesmo que aconteceu: a amizade entre os dois crescia a cada dia, ele passava quase todo o expediente dos correios por lá em longas conversas, e algumas vezes em que ela precisou viajar para seus treinamentos, ele também desapareceu. A situação evoluiu a um ponto em que se tornou comum ver os dois caminhando lado a lado pelas ruas faltando apenas dar as mãos para, publicamente, se identificarem como enamorados.

inconsequente, Antoniano percebendo que ninguém mais punha em dúvida a relação entre os dois, quando questionado pelos amigos sobre o assunto confirmava e ainda se vangloriava do feito. Afinal, não havia um dos seus amigos que não desejasse estar no seu lugar.

O sentimento geral em relação a seu Valdo era de pena. Um homem tão bom, honesto, trabalhador, que adorava a esposa, vivendo uma situação daquelas.  Todos achavam que o marido não sabia de nada e Antoniano tinha esta certeza. Afinal, seu Valdo era um escravo do trabalho. Passava o dia inteiro na barbearia e, mesmo sendo uma pessoa cordial, não era de muita conversa e nuca fora visto em esquinas ou bares jogando conversa fora com amigos. Sua vida era do trabalho, para a casa e de casa para a igreja.

E na certeza de que seu Valdo nem desconfiava do seu envolvimento com sua esposa, Antoniano  utilizava-se dos seus serviços de barbeiro, sem nenhum receio ou constrangimento.

Foi numa daquelas tardes de sexta-feira, com as ruas quase desertas, que Antoiano adentrou a barbearia do seu Valdo para, mais uma vez, fazer a barba. À noite haveria um suarê de radiola na palhoça e ele, na sua condição de galanteador, teria de estar bem barbeado, bem vestido. Como de costume, movimentando uma alavanca, o barbeiro fez a cadeira mover-se deixando o cliente quase deitado, com os pés e cabeça apoiados, numa posição confortável, quase um convite a uma soneca.  De olhos fechados, cobertos por um lenço, o cliente aguardou sem pressa, desfrutando de todo aquele conforto, enquanto seu Valdo preparava, pacientemente, os apetrechos para o serviço. Depois veio a espuma gelada espalhada suavemente com um pincel por todo o seu rosto. Tão agradável era aquela sensação que, se possível, passaria o resto da tarde ali, dormindo e usufruindo do frescor daquela espuma mentolada. E, assim, ficou por alguns minutos enquanto, com a sua costumeira paciência, o barbeiro afiava a sua famosa navalha.  Famosa porque ele sempre se vangloriava de que tinha um fio inigualável. Era suíça e não conhecia ninguém que possuísse semelhante.

Afiada a navalha, seu Valdo pigarreou e, descendo vagarosamente a mão, que se encontrava acima do rosto do freguês, encostou o fio cortante no seu pescoço, precisamente sobre o pomo de adão, mantendo-o ali, imóvel, por alguns segundos. Antoniano estranhou. Sempre que fazia sua barba, seu Valdo começava pelo bigode, o pescoço era a última parte. Com aquela navalha imóvel tocando o seu pescoço, começara a impacientar-se, quando o barbeiro falou:

- Meu jovem, é verdade que você está tendo um relacionamento amoroso com a senhora minha esposa?

A navalha permanecia no mesmo local. A pressão permanecia a mesma, mínima. Antoniano é que não era mais o mesmo. Todo o seu metabolismo estava envolto numa espécie de furacão: tremores, em um canto, calor em outro, frio, náuseas, intestino contorcendo-se, estômago revirando-se...  E a navalha parada, tocando levemente o seu pescoço, sem nenhum tremor, nenhuma oscilação, como se estivesse sendo segurada pela mão de um robô.

- Responda, meu rapaz!

- É, sim senhor.

Não foi uma resposta corajosa. Foi a única que conseguiu dar. Parece que ele acabava de acordar de um sono profundo e agora estava tudo muito claro. De fato, todo mundo sabia da sua história com dona Grace. Ele só faltou mesmo andar de braços e beijá-la em público, mas acompanhá-la ao trabalho passar o dia com ela por lá e ainda acompanhá-la a casa no fim do expediente, tudo isso fizera, como adolescente ingênuo. Claro que o marido sabia de tudo e não havia outra coisa a dizer, senão, confirmar. O suor misturava-se à espuma e o jovem passou a tremer como se estivesse febril. O barbeiro retirou-lhe o lenço dos olhos e, afastando a navalha do seu pescoço, com a voz calma e serena de sempre, apenas um pouco entrecortada, disse:

- Rapaz, levante-se da minha cadeira; saia do meu estabelecimento; e nunca mais volte aqui.

***

Para Antoniano, a vida continuou sem mudança alguma, até a noite em que, ao cantar em uma das suas serenatas, se deparou com “a criatura mais linda”.

Para seu Valdo e Família, a vida também continuou, mas longe dos olhos e ouvidos de Mericó. Apenas a sua sofisticada cadeira de barbeiro permanece até hoje, na barbearia central, única da cidade.


Aldenir Dantas


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