O DIA EM QUE A JOVEM MARICÉ ENFRENTOU O TEMÍVEL TIÃO CAPITÃO
Postado em10 Aug 2014 23 32 HISTORIAS DE MERICO


Após estabelecer-se em Mericó como fazendeiro, adquirir fama, dinheiro e, consequentemente, respeito, Tião Capitão, cedendo ao assédio de lideranças estaduais, entrou para a política.


Em Mericó, ao contrário de algumas cidades do Seridó, nunca teve coronéis, mas, após dois mandatos de prefeito Tião assumiu este posto. Assim, mesmo quando não ocupava a cadeira de prefeito, passava o sábado e o domingo na cidade fazendo contatos, atendendo a um e a outro, fazendo um favor aqui, outro ali e recebendo compadres, amigos e políticos em seu gabinete, instalado num quarto anexo a casa. Ali juntava seus papéis e atendia aos muitos que o procuravam, chegando a formar filas em tempos de eleições.


Mas naquele dia Tião conversava na sala de estar com o prefeito e com o presidente da câmara, eleitos com a sua ajuda, sobre recente visita à Fazenda Uirapuru, a convite de Teodorico  Bezerra. O major era o seu referencial de liderança, único homem capaz de convencê-lo a entrar para a política.


- Se eu lhe dissé você num acredita, Manezim! O majó me recebeu na sua fazenda com a banda de música, homi! Fiquei todo arrupiado. Nunca tinha visto coisa tão bunita.


- Mas, seu Tião! Foi mesmo?


- Num tô lhe dizeno, homi! E olhe aqui: voltei de lá cum uma coisa certa, aqui na minha cabeça... Mericó tem qui tê uma banda de música!


- É, seu Tião. Tem que ter mesmo.


- Mulé, manda fazê aí um cafézim prá nói!


A conversa continuou. Uma verdadeira sessão de aconselhamentos. Manezim sorvia cada gota do tino político e da experiência do seu protetor quando entrou na sala uma jovem trazendo uma bandeja com café e algumas iguarias caseiras.


Após anos morando na cidade, aquela família mudara o padrão de vida. Tião Capitão deixou em segundo plano suas aventuras amorosas e sua esposa, no convívio com primeiras damas e mulheres de deputados, tornara-se uma dama da sociedade, o que não foi difícil, pois, ao contrário do marido, tinha ela, uma boa educação.


Maricé, a jovem serviçal, era filha de um morador. Há alguns meses viera morar com o casal. Os pais concordaram com a sua vinda para ajudar nos serviços domésticos, com direito a casa, roupa e estudo. Segundo os patrões, seria tratada como filha. Para o pai, talvez fosse esta uma forma da menina, que já ia fazer dezessete anos, melhorar o seu comportamento espevitado. Era estudiosa, trabalhadeira, mas muito respondona. Não respeitava nem temia a ninguém, carregando sempre uma resposta afiada na ponta da língua.


E ali estava ela com um vestido de chita em desuso pelas meninas da cidade, magra, rosto salpicado de sardas e faltando-lhe dois incisivos superiores, fato comum entre jovens e até crianças daquela época. Contrastando com aquele corpo esbelto e rosto miúdo, sua cabeleira era vasta, crespa e indomável como a dona. Cairia muito bem se usada no estilo black power, mas naquele tempo nem se sabia o que era isso. Sempre presos por um diadema, no intuito de se manterem menos eriçados, eram os seus cabelos que mais constrangimentos lhe geravam. Principalmente porque, naquela época, surgiu na TV a propaganda de uma marca de peruca e logo os colegas da escola a usaram para apelida-la: Canecalon. Ela ficava irritadíssima. Suas respostas eram as piores possíveis, claro que, dentro das limitações e da ingenuidade de uma jovem egressa da zona rural.


A mulher de João Capitão, por mais de uma vez ameaçou devolver a moça à família, devido à língua solta e à resistência às suas orientações. Os enfrentamentos eram constantes. Ora tinham ares de graça, ora de má criação, e já começaram no primeiro dia de trabalho. Vendo-a preparar a refeição com aqueles cabelos que mais pareciam a copa de uma árvore ameaçando tocar os alimentos, a patroa chamou-lhe a atenção.


- Maricé, minha filha, você não pode trabalhar na cozinha com este cabelo solto, assim. Pode até cair na comida.


- Vige Maria, dona patroa! Isso é besteira...  Meu cabelo é ruim, mas é limpim!


Entre corrigendas e graças eram as suas relações com os superiores, fossem familiares, professores ou patrões. A patroa nunca confessou, mas, pela expressão do rosto pode-se ver a satisfação no dia em que a cunhada rica, de Campina Grande, veio visitá-la e tentou colocar Maricé nos trilhos.


Era uma senhora esguia, de pele encarquilhada e nariz aquilino. Bem mais idosa do que o irmão, gostava de ostentar até o que não tinha e se dizia uma especialista na arte de receber e administrar uma casa. Naquele dia, durante o preparo do almoço, ela adentrou a cozinha, altaneira, autoritária, olhando tudo do alto e, bastou uma breve inspeção para identificar uma dúzia de falhas que tratou imediatamente de apontar.


- Minha cunhada, você é mulher de um líder político. Precisa melhorar, e muito, a forma de preparar um almoço para as suas visitas. Permita-me, querida, que oriente um pouco a sua serviçal.


A dona da casa manteve-se calada, mas a cunhada passou a desfiar um leque de orientações enquanto a jovem corria de um lado para outro no seu trabalho. Após longos minutos de considerações, a senhora suspirou, fez uma pausa e concluiu:


- É assim que você precisa fazer, minha jovem, e não como está fazendo!


Ao ouvir suas últimas palavras, Maricé atirou no ombro o pano que usava para enxugar a louça, colocou-se frente a frente com a madame, causando-lhe notório mal estar, apoiou as mãos na cintura, olhou bem dentro dos olhos da interlocutora, balançou os quadris, esboçou um largo e forçado sorriso, para exibir a ausência dos dentes, e falou:


- É nada, estrela!


Sentindo-se ofendida a madama, em vão, procurou apoio na cunhada que havia virado o rosto para não disparar numa gargalhada. Indignada, deu meia volta e saiu da cozinha resmungando:


- Insolente! Gentinha do mato...  


Mas retomando essa coisa de apelido, nas pequenas cidades interioranas isso é coisa séria podendo levar a intrigas ferrenhas e até morte. O próprio Tião Capitão tinha um, comentado por todos, mas às escondidas, caso contrário, sabe Deus o que poderia acontecer. A prova disso foi pôr a perder a sua primeira campanha para prefeito porque o adversário, exaltado, mencionou o seu apelido em um comício. Mal pronunciara o fatídico nome, em meio às gargalhadas do povo, ouviu-se um tiro seguido da queda do candidato sobre o lastro do caminhão palanque. A bala acertara-lhe o ombro. O adversário ganhou a eleição, mas perdeu o movimento do braço. Tião teve uma breve indisposição com a justiça e ninguém jamais ousou mencionar tal alcunha em sua presença.


Na sala, passados alguns minutos, as visitas haviam terminado o lanche, Maricé voltou para recolher a louça e Já se dirigia ao corredor com a bandeja, quando o patrão a chamou:


- Agora traz uma aguinha, pra nói, canecalonga!


Ela parou. Primeiramente, devido ao susto. Concentrada no transporte da bandeja, aquele vozeirão quase a fez soltar tudo no chão. Depois, veio a indignação com a provocação daquele que, pelo trato com sua família, deveria tratá-lo como filha. Além de chamá-la por aquele apelido odioso, ainda o fez de forma errada. Um calor tomou conta do seu rosto e as orelhas ficaram vermelhas como um pimentão maduro. Lentamente, ela depositou a bandeja sobre uma cadeira, colocou as mãos na cintura, virou-se para o patrão apertando bem os olhos, inclinou-se em sua direção, remexeu o quadril e, para surpresa de todos, exclamou com sua voz estridente:


- Até tu, Capitu?!


Os presentes não quiseram acreditar no que acabaram de ouvir. Aquele era o impronunciável apelido de Tião Capitão.  O prefeito abaixou a cabeça e se pôs a riscar o mosaico do piso com o palito que antes mastigara. Apavorado, o presidente da Câmara, olhou para um e outro lado, em busca de uma rota de fuga. Sem encontrá-la, ficou sem saber o que fazer, o que dizer, onde colocar as mãos, para onde olhar...


Tião Capitão, no primeiro momento, encheu-se de ar, como um cururu ameaçado, segurou firmemente com as duas mãos a chibata de couro trançado que mantinha ao lado da poltrona, e passou a torcê-la para um lado e para o outro como se estivesse exercitando os músculos para uma ação.  Maricé, impassível, olhava-o no rosto. A dona da casa apareceu na sala com uma expressão de terror estampada no rosto.


Foram poucos minutos, talvez segundos, mas para aquela plateia aterrorizada, pareceu durar uma eternidade, até o patrão falar:


- Sua cabrita abiúda, se assente ali! – Falou apontando com a chibata um pequeno banco de madeira usado para apoiar os pés.


Ela, com a naturalidade de sempre, sentou-se, apoiou os cotovelos nos joelhos, o queixo sobre as mãos e permaneceu olhando para o patrão, sem receio algum, enquanto os outros não se continham, receosos do ato impensado daquela coitada.


Diante dos olhares assustados, Tião Levantou-se, chicoteou a calça de mescla Santa Izabel e deu uma volta na sala, fazendo soar no mosaico sua recém-comprada bota de sola. Parou defronte à jovem, fitou-a demoradamente, mas, ao contrário do que se esperava, dirigiu-se ao prefeito:


- Uma afronta, um disavergonhamento, uma farta de respeito sem tamãe... O qui essa cabrita disse é tudo isso e muito mais. Mai tem uma coisa ainda maió do qui tudo isso pur traz dessa macriação... Prefeito, prisidente, os senhores sabem o qui é?


- Um insulto sem limites, seu Tião!


- Uma total falta de respeito pelo senhor que a trata como filha...  Eu acho.


- Vocês num tem têm mermo nenhum tino para pulítica. Jamais chegariam a sê um Getúlio, um Aluíso, um Theodorico.  O qui essa moça tem é o qui nenhum de vocês têm: Corage!


- Seu Tião, tá ficando tarde. Temos de ir, né prefeito?


- Vão agora, não. Deixa eu dizê só umas coisinha. Você aí, dois, cum licença da palavra, frouxos, tão se tremendo cum medo do que vou fazê com a menina... Né isso? Pois vou lhe dizer uma coisa: nesse meu tempo todo de pulítica, eu queria ter incontrado um cabra com a corage e a disposição dessa muleca. Mas só incontro molenga quiném vocês, que parecem uns cachorro cum rabo entre as perna... Num tem corage de enfrentá a oposição, num tem corage de butar os empregado pra trabaiá... Tem medo até do povo...


- Mas não é bem assim não, seu Tião.


- Mas ora se num é! Basta eu dá um grito aqui na minha casa qui o prefeito e a câmara de vereador todinha só falta fazê aquilo nas calça... 


- Vocês querem mais um cafezinho, uma aguinha? – Falou a mulher tentando apaziguar os ânimos.


- Nem mané café, nem mané água, mulé! – Falou e, dirigindo-se à jovem, continuou -  Venha aqui, menina.


Com sua tradicional desenvoltura, a moça levantou-se e colocou-se do seu lado. Ele, pondo a mão em seu ombro, continuou, dirigindo-se à esposa:


- Mulé, trate de mandá fazê uma chapa pra tirá a banguelice dessa minina. E tem mais: Arrume umas roupa mais decente pra ela e lhe ensine uns modos educado. Mas num ensine muito não, qui é pra num estragá-la.


- Não estou lhe entendendo, Sebastião.


- Nem você, nem meus correligionário aqui. Mas vão entendê agora: Já qui nunca encontrei um cabra macho de verdade, de sangue no olho, Maricé vai sê a veriadora apoiada por mim na próxima eleição. E todos que me deve respeito e favô vão votar nela! Mulé que tem corage de enfrentá Tião Capitão, tem corage pra enfrentá até o cão!


- E eu tenho mesmo! – Confirmou a jovem.


E assim aconteceu: Tião Capitão voltou à prefeitura levando consigo Maricé, a vereadora mais votada de Mericó.


Aldenir Dantas


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