O JIPE DE ZÉ BARAÚNA
Postado em16 Aug 2014 23 12 HISTORIAS DE MERICO



Após viver por quarenta anos labutando no pequeno pedaço de terra herdado do pai, Zé Baraúna tirou a sorte grande. Foi encontrada em sua propriedade uma reserva de turmalinas que, já nos primeiros meses, o transformou em um novo rico mericoense.


Realizando um sonho antigo da irmã, solteirona, com quem morava desde a morte dos pais, comprou uma casa e mudou-se para a cidade. E realizando um sonho pessoal, comprou um jipe.


Trabalhando na agricultura desde criança, Zé nunca estudou. De um lado havia o seu desinteresse pela escola e do outro a falta de incentivo do pai que dizia “filho de pobre tem é que trabalhar para ajudar a família...”.


De poucas palavras, pouco dado a festas, era grande admirador dos violeiros e emboladores de coco. Não perdia uma cantoria no hotel de dona Branca, de quem era freguês assíduo. E quando se excedia na bebida, o rapaz tímido desaparecia dando lugar a um animado poeta glosador. Tudo o que dizia era em verso demonstrando grande talento para o improviso.


Mas, a fartura de dinheiro, a vinda para rua e a compra do carro viraram-lhe a vida pelo avesso. O jovem que por quatro décadas estivera preso à responsabilidade de manter a família com o duro trabalho no campo, sem tempo, jeito e condições até para arranjar uma noiva e casar, se libertou transformando-se numa preocupação constante para a irmã que o tratava como filho.


Após fazer amizade com o boêmio Antoniano, os dois chegavam a passar de sábado à segunda-feira farreando de cidade em cidade. Nos demais dias da semana, curava a ressaca e cuidava dos negócios.


Sem nunca ter pegado no volante de um carro, passados três dias da compra do jipe já andava rua acima rua abaixo assustando as pessoas que, quando o viam surgir gritavam “sai do meio, que lá vem Zé Baraúna!”. O curioso é que estas mesmas pessoas tinham coragem de andar com ele, pois, nas suas idas para a feira de Cuité, Santa Cruz ou para o sítio, sempre levava o carro lotado.


E foi assim naquela tarde de segunda, quando voltava da feira de Cuité, com Antoniano no banco da frente e o no de traz, duas jovens de vida difícil, com maletas e bolsas em mudança de Cuité para Santa Cruz.


Como de costume, haviam bebido bastante. As jovens seguravam-se uma na outra, assustadas com os pulos do carro nos buracos e com a inclinação nas curvas que, por pouco, não as atirava para fora.


Para Zé Baraúna, dos prazeres de dirigir, o maior era o de, como dizia o próprio, "enrolar quadrado nas curvas”. Mas, assim como os versos, este tipo de comportamento só se manifestava quando ingeria álcool imoderadamente.


A estrada entre Jaçanã e Coronel Ezequiel, na chapada da serra de Cuité, é plana, mas perigosa devido às muitas curvas. Divisando ao longe a curva mais acentuada daquele trecho, gritou uma das moças, assustada com a velocidade:


- Que carreira doida, Zé! Esse jipe tem freio?


Além de imediata, a resposta denunciou que o motorista havia bebido mais do que o devido:


- Aqui tem frei de motor
Frei de pé e frei de mão
E prá ficá mais siguro
Tem inté Frei Damião!


Concluiu a fala soltando uma mão da direção e apontando para um retrato do Frade Italiano colado no para-brisa. Mas, voltando a mão para fazer a curva, um pneu dianteiro bateu num buraco, o carro deu um pulo faltando pouco para atirar fora os passageiros e, ao girar o volante, ouviu-se um estalo e o grito do motorista completando o verso:


- E Valei-me Nossa Sinhora!
Qui quebrou-se a direção.


Em meio à gritaria das moças, o carro deixou a estrada, adentrou um milharal fechado, pronto para a colheita e, com as mulheres desesperadas querendo segurar-se nele, Zé atrapalhou-se e, em vez de usar os freios há pouco mencionados, usou o acelerador, passando em alta velocidade e quase colado à porta da cozinha de Chico Gaspar. Em seguida, derrubou e atravessou um chiqueiro de porcos e outro de galinhas somando ao alarido das mulheres, a gritaria dos bichos espalhando-se assustados sítio afora.


Para sorte de todos, antes de chegar à descida da serra, o carro mergulhou sobre a copa de um cajueiro e esbarrou no seu tronco. Como é muito comum entre estas árvores, o tronco daquela era bastante inclinado, permitindo que a dianteira do veículo subisse, deixando-o inclinado, com os pneus dianteiros no ar.


Seguindo a trilha dos estragos causados em sua propriedade, Chico Gaspar em pouco tempo chegou ao cajueiro. Encontrou o jipe naquela situação inusitada, o motorista desacordado com o rosto ensanguentado sobre o volante e as duas moças abraçadas, chorando e gritando ao mesmo tempo, e sem ação para descer do automóvel.


Homem forte, equilibrado e decidido, Chico acalmou as jovens, as ajudou descer e, com a chegada de outros membros da família e vizinhos, fez descer Zé Baraúna. Com uns sacolejos e um pouco d´água no rosto, o fez acordar e, percebendo que sofrera apenas um corte no supercílio, colocaram-no de pé.


Aos poucos, olhando em derredor, o acidentado foi tomando ciência dos acontecimentos, cercado por uma pequena multidão de curiosos, além das jovens passageiras que tinham as mãos e ombros ocupados com os seus pertences, recuperados pelas trilhas do acidente. Por último, uma visão, em primeiro momento, assustadora e, em seguida, engraçada: A chegada cambaleante de Antoniano que, exceto os olhos e a boca, estava encoberto de negra e mal cheirosa lama. No choque do carro com chiqueiro dos porcos, fora atirado ao lamaçal onde aqueles animais se refrescam.


Perante a inexistência de gravidade, as pessoas começaram a rir e se afastar do recém-chegado com a mão no nariz. Contudo, Chico Gaspar preocupava-se em arrancar uma palavra de Zé, para certificar-se de que estava tudo bem, de fato.


- Zé, homi, fala alguma coisa!


Afastando-se dos que o protegiam, Zé Baraúna olhou os presentes, um a um e, estendendo a mão em direção ao carro montado no tronco da árvore, falou:


- Eita jipe véi pai d´égua!
Vai no Norte, vai no Su.
Sobe serra, desce grota
Sob inté pé de caju!


Todos caíram na gargalhada e foram tratar da vida e dos prejuízos causados pelo inusitado acidente.



Aldenir Dantas




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