CARTA DE UM LEITOR: UMA LOUCURA PUXA OUTRA
Postado em23 Aug 2014 21 10 HISTORIAS DE MERICO




Auguste Renoir. Conversation with the Gardener.
c.1875



É comum os leitores das Histórias Mal Contadas de Mericó me confundirem com quem as escreve. Por isso hoje, recorrendo à Teoria da Literatura, venho esclarecer que somos entidades distintas: quem escreve é o escritor (se é que posso chamá-lo assim) e eu sou um personagem que também é narrador onisciente.

Tenho, portanto, vida própria e, devido à minha onisciência, em se tratando de conhecimento e, consequentemente, de liberdade, o autor está muito aquém de mim.

Talvez seja esta a razão da primeira carta, escrita a partir destas Histórias, haver sido dirigida a mim. O leitor fez questão de que assim fosse e para não haver engano, escreveu no envelope: “Ao narrador das Histórias Mal Contadas de Mericó, aos cuidados do Sr. Autor.”

Fiquei muito satisfeito com a missiva, pois, exceto um ou outro leitor mais interessado nas Letras, ninguém, sequer, sabia da minha  existência.

O desejo do leitor, creio, era o de que, na minha onisciência, narrasse livremente o seu relato. Mas achei seu escrito tão verdadeiro e cheio de sentimentos, que não ousei interferir no conteúdo. Optei, portanto, por transcrevê-lo. Ei-lo a seguir:


“Senhor narrador,

Graças às novas tecnologias, suas Histórias Mal Contadas chegaram até mim, mesmo distante centenas de quilômetros das Terras Potiguares. Desde a sua primeira narrativa, mergulhei na atmosfera da pitoresca Mericó e a cada história navego mais e mais no mágico oceano que em muito extrapola os limites das suas narrativas. Contudo, se fosse apenas isto não estaria escrevendo-lhe. É que nesse meu viajar deparei-me com uma pessoa que me prendeu à atenção de tal maneira ao ponto de, se acreditasse em reencarnação, dizer que há indícios de fortes laços pretéritos nos prendendo. Refiro-me à Eudóxia, cuja alcunha de dona Dodó, para mim, não lhe faz jus. 

Senti uma espécie de choque na alma só em ler seu nome pela primeira vez. A partir daí passei a atentar minuciosamente em cada palavra escrita ao seu respeito, da sua adolescência à notícia da sua morte.

Confesso que, mesmo reconhecendo o caráter despretensioso e a superficialidade destas narrativas, muito me incomodou a pouca ênfase dada ao rico universo daquela mulher tão especial.

Com meus botões, imaginava como gostaria de tê-la acompanhado em seus passeios e em seus pensamentos às margens do rio, naqueles longínquos fins de tarde. E viajar com ela em seus romances do século XIX e sentar a sua mesa, meticulosamente posta.  Enquanto leitor, fui privado de um convívio mais aprofundado com Eudóxia, mas minha alma sonhadora, descontente com as limitações que vossa senhoria, mesmo sem querer, lhe impôs, transpôs os limites das palavras e chegou a viver ricos e fantasiosos momentos ao seu lado.

Não me entenda mal. Não estou pedindo-lhe para narrar novas histórias sobre este memorável personagem. Apenas quero registrar um fato inusitado ocorrido comigo, sem outra intenção, senão, a de contribuir para o engrandecimento da memória desta maravilhosa e incompreendida mulher.

Visitei há pouco a capital do seu Estado.  E mesmo enchendo os olhos com as belezas naturais, não consegui esquecer em momento algum o fato de que, há pouco mais de cem quilômetros dali se encontrava Mericó, com toda a sua magia.

A família se deliciava procurando aproveitar cada centímetro de mar azul, cada raio de sol, cada grão de areia daquele magnífico litoral. Mas eu, vira e mexe, esquecia tudo ao redor e falava em Mericó. Tive até de me policiar, pois aquilo passou a incomodar os demais, especialmente a esposa que me queria ao seu lado, desfrutando daquele raro momento e não quixotescamente preso ao que ela chamava de “historietas mal contadas”.

Ao terceiro dia, fui acordado por uma ideia brilhante; daquelas que não se sabe de onde vem, mas, em geral constitui solução para um problema. Na hora do café todos sentiram a minha leveza. Estava estampado em meu rosto que meu espírito, enfim, resolvera entrar de férias. Aproveitei a descontração para comunicar minha ideia e mais do que isso, propor um acordo: Como ninguém tinha interesse em Mericó, eu os deixaria no hotel enquanto visitaria aquela cidade. Iria num dia, voltaria no outro. E, doravante, não mais tocaria no assunto. Em pouco tempo o acordo foi fechado.

Naquela manhã, dei uns bons mergulhos com as crianças e, com o coração acelerado pela ansiedade, tomei um ônibus da Jardinense em direção à sempre velha Mericó.

Em todo o trajeto sentia-me igual a uma criança. Claro que tinha interesse em conhecer a cidade, mas o foco deste interesse era Eudóxia. O amigo narrador poderia pensar que estava louco, pois ela há muito estava morta. Mas sei que me compreenderá, pois a sua narrativa é sutilmente entremeada de nobre carinho por aquela notável dama.

Queria mesmo era, na biblioteca, tocar nos livros que lera, passear com os olhos pelas mesmas palavras, avançar as mesmas páginas que suas mãos delicadas fizeram avançar... Queria respirar aquele ar de fim de tarde, trilhando os mesmos caminhos por ela trilhados; sentar à margem do rio para ver o sol se por e imaginar sobre o que conversaríamos se estivesse ao meu lado.

Após passar por Santa Cruz, uma placa indicava as próximas cidades: São Bento do Trairi, Coronel Ezequiel, Mericó, Jaçanã. A emoção foi tamanha que senti um calafrio. Em menos de meia hora desci do ônibus e pus os pés em solo mericoense, com o cuidado de quem pisa em terras sagradas. Inspirei o máximo possível aquele ar fresco, serrano.

Olhei por um bom tempo a paisagem urbana e me senti como se deixasse de ser eu mesmo e me tornasse um dos personagens das suas narrativas. Quase não havia traços de modernidade naquele lugar. Era como se a cidade tivesse parado no tempo. E diante dos olhares curiosos dos que mantinham a tradição de esperar o ônibus, pus a mochila nas costas e segui para a única pousada da cidade.

Depois de um breve descanso, peguei um antigo livro de poesias que estava lendo, colhi uma flor no jardim da pousada, segui para a praça e sentei-me num banco de frente para o poente onde, certamente, Eudóxia sentara muitas vezes para uma breve leitura antes do seu passeio vespertino.

Nunca havia sentido sensações tão estranhamente agradáveis. Aquilo me era, ao mesmo tempo estranho e familiar. Nunca estivera ali, mas a brisa, o perfume das flores de jasmins, a tranquilidade e aquele sol dourando o casario antigo... Era como se tudo aquilo fizesse parte de mim, era como se fossem meus...

Li um pouco e desci rua abaixo procurando sentir ao máximo cada particularidade daquele momento: o barulho das botas no calçamento, a brisa suave, os passantes, os curiosos das janelas, o sol aproximando-se da serra e a imaginação produzindo imagens de Eudóxia tingida de sol trilhando aquele mesmo caminho.

Chegando ao rio, logo descobri a pedra em que costumava sentar para apreciar a paisagem e conversar com seus amigos cavalheiros. A rocha, além da base, tinha uma inclinação proporcionando quase o conforto de um sofá. Sentei e depositei a flor ao lado numa simbólica entrega, em sinal da minha admiração.

Por um bom tempo olhei e ouvi o rio margeado pelo verdejante capinzal. O sol ficava cada vez mais amarelado e próximo da serra. Envolto por um conjunto de inenarráveis sensações, fechei os olhos, adormeci e acordei com algo me fazendo cócegas na ponta do nariz.

Eram as pétalas da flor que trouxe comigo. Tentei não acreditar no que via, mas não tive alternativa, pois era verdade: Eudóxia sorria para mim e tocava-me suavemente com a flor que lhe presenteei. Perguntou-me, com um gesto, se era para ela. Com um gesto, igualmente, respondi que sim.

Ela sorriu, levantou-se e convidou-me para passear. Ofereci-lhe o braço e seguimos pela margem do rio, fazendo uma trilha sobre o capim que nos chegava próximo do joelho. Tudo sem palavras. Apenas sorrisos amenos e encantamentos em cada passo, em cada olhar.

Não havia nela nenhuma roupa tosca, nenhum acessório extravagante... Apenas levezas, sutilezas, suavidades... Era como se estivesse vestindo as harmoniosas formas e cores do entardecer. Também não havia em seu rosto marcas de sofrimentos, nem sinais de uma saúde comprometida. Era uma Eudóxia serena e madura, uma balzaquiana com o frescor e a jovialidade que a maioria das mulheres perde antes dos vinte e cinco anos. 

Nosso diálogo foi intenso, mas não há quase o que registrar, pois quase nada foi verbalizado. Falaram as nossas almas, através dos olhos ou, quem sabe, da telepatia.

Sentados num pequeno banco de areia, cercado de verde, ela tomando-me o livro, levantou-se, dirigiu-se a uma cerca coberta de verde de onde trouxe uma flor e ofereceu-me soltando-a entre as páginas do livro e fechando-o.

Deitei-me na areia. Conversamos bastante sobre não lembro o que. Era magnífico olhar para o seu rosto contra aquele céu de quase noite, segurando uma de suas mãos sobre o meu peito, enquanto ela, com a outra, tocava-me suavemente nos cabelos.

Claro que aquilo era um misto de realidade e sonho. Sabíamos do caráter fugidio daquele momento, pois, nós e o mundo estávamos mais próximos de uma tela de Renoir do que da vida real. E ainda havia um perfume que, mais do que aromatizar o ambiente, balsamizava a alma.

- Tu és uma flor, Eudóxia. – Falei.

- Somos flores vivendo um momento de esplendor – Ela respondeu.

Fechei os olhos, enquanto ela, em tom de acalanto, lia o trecho de um poema:

...Apesar de que nada pode trazer de volta a hora de esplendor na relva,
de glória numa flor, não nos afligiremos.
Encontraremos forças no que ficou para trás. (1)

- Ou no que ficará para frente. – Concluí.

- Ou no que ficará para frente. - Repetiu.

Há muito o sol havia se posto quando fui acordado por dois homens, a mando da minha anfitriã, sabedora de que eu estava desmaiado ou dormindo à beira do rio. Tateando na areia encontrei o livro, agradeci aos senhores e, calado, segui para a pousada.

Na manhã seguinte, com o ânimo estranhamente renovado, retornei para Natal ansioso, desta vez, para reintegrar-me à família e aproveitar o que me restava das férias.

Quanto a Eudóxia, que por muito foi um sonho maluco, tornou-se uma realidade, igualmente maluca que talvez um dia venha a compreender. Se bem que, compreender é algo que relego ao segundo plano. Para mim, valem mais viver e sentir.

Reunido à família na varanda do apartamento após o jantar, falei sobre Mericó, claro que, lhe poupando da história de Eudóxia. Esgotado o assunto, abri o livro que estava lendo, sem querer, na página em que se encontrava a dita flor, prensada. Custou-me muito disfarçar o choque que sofri. E de nada valeu o meu esforço, porque a reação foi coletiva: o perfume da tarde anterior tomou conta do ambiente arrancando exclamações elogiosas de todos. Disse-lhes que aquela era a flor Eudóxia. Só existia em Mericó e recebeu este nome numa justa homenagem a uma bela, sensível e perfumada dama que vivera naquela cidade há muito tempo.

Precisava contar este ocorrido maravilhosamente fantástico a alguém. E só em você, caro narrador, identifiquei a cumplicidade necessária para acolhê-lo.

Para que não restem dúvidas, minha vida segue a normalidade de sempre. Quanto a Eudóxia, sua vida também continua: seja na minha imaginação, seja num mundo imperceptível aos nossos sentidos grosseiros. E isso é o que importa. E se os leitores acharem que sou igualmente louco, isso também não me importa.

Atenciosamente,

Um leitor”.


Diante de tão inusitada carta, o que me restou, além desse mistério entranhado no pensamento, foi o desejo de ter uma posição mais ativa nestas Histórias. Vivo apenas narrando-as e, já que um leitor adentrou neste conto, quem sabe eu, um explorado narrador, qualquer dia desses fuja ao controle do autor e, mais do que onipresente e onisciente, seja também um personagem esférico, atuante. Esperarei.


Aldenir Dantas


(1)    Nota do autor: Trecho de um poema de William Wordsworth (1770-1850).


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