ZÉ DO SANTO: O MERICOENSE QUE SE ENCONTROU COM DEUS
Postado em07 Sep 2014 11 34 HISTORIAS DE MERICO




Aconteceu no ano de mil novecentos e setenta. Mericó estava mergulhada na calamidade causada pela seca. Até a feira livre foi suspensa  devido à escassez de recursos e à onda de saques que varreu a região. Fome, animais morrendo de sede, homens vendidos como escravos partindo para o sudeste e centro oeste nos paus de arara, dentre outras cenas desoladoras, compunham o quadro daqueles dias.

Há pouco havia se instalado naquela cidade o sindicato dos trabalhadores rurais. Em suas atividades, reunia os trabalhadores esclarecendo-os sobre a importância da organização, fornecia algumas fichas para consultas médicas e odontológicas e buscava, inutilmente, junto aos poderes constituídos algo que minorasse o sofrimento daquela gente.

Seu presidente, Zé do Santo, mesmo com uma formação escolar precária, era tido pelos colegas, a maioria analfabeta, como um homem muito sabido. Inquieto, curioso,  não perdia as oportunidade de aprender, ouvido muito rádio e lendo tudo que encontrava pela frente. Além do mais, era um bom homem; além das próprias, sofria as dores dos companheiros na cotidiana e descomunal batalha pela sobrevivência.

Em meados daquele ano, para surpresa de todos, Zé, que não tinha boas relações com a igreja, chegando a ser taxado de ateu, passou a frequentar a missa e, até, os terços e novenas que se intensificavam pelos sítios rogando chuva aos céus. Interpelado pelo amigo Chico Pedro sobre a repentina mudança, respondeu:

- Já que ninguém traz um alívio pra essa miséria que tá matando a gente à míngua, tô procurando um jeito de apelar diretamente pro Criador. E olhe que estou mesmo é querendo me encontrar pessoalmente com ele.  Deve ter um jeito de encontrá-Lo. Se tem com o cão, porque num tem com Ele?

- É. E com o cão tem mesmo! Todo mundo sabe que Sivirino Sanfoneiro só fazia zuada com a sanfona, mas de uma hora pra outra passou a tocar como ninguém. Dizem que foi depois de se encontrar com O cramunhão, à meia noite, numa encruzilhada.

- Pois se Deus é o contrário do diabo, meu amigo, vou encontrá-lo é de meio dia, no meio do mato fechado.

- Mas tu tem cada coisa, home! Isso é sacrilégio. Só quem se encontrou com Deus foi Nosso Senhor Jesus Cristo.

- Pois o próximo vou ser eu. Amanhã mesmo vou sair de casa levando um cabaço d´água, rapadura, farinha e uma beira de carne assada no bisaco e só volto quando topar com Ele. Se sou seu filho, como dizem, Ele haverá de falar comigo. Aí, meu camarada, se num falar, o jeito vai ser procurar o seu inimigo de meia noite.

- Home, deixa dessa besteira e vamos cuidar da vida.

Promessa feita, promessa cumprida: no dia seguinte, Zé do Santo despediu-se da mulher e dos filhos dizendo que ia fazer uma viajem sem dia certo para voltar. Só o amigo sabia do seu intento, mas permaneceu calado, mesmo receoso de que o amigo estivesse ruim da cabeça.

Adentrando a mata que encobre as encostas da Serra de Cuité, Zé procurou afastar-se o máximo possível de qualquer sinal de gente. Acampou à beira de um córrego, embaixo de um juazeiro que, em meio às árvores causticadas pela seca, permanecia verde e frondoso.

Ali permaneceu por quatro noites, colocando-se à disposição para receber e ouvir o criador, diariamente, sempre ao meio-dia.

Faminto e abatido, repousava com a cabeça apoiada  numa pedra, à sombra da árvore, quando o cansaço o fez entrar numa modorra enquanto esperava a ilustre visita. Mal fechara os olhos e Ele chegou.  Deslumbrado com o que via e sentindo-se envolto na luminosidade que tomou conta do local, ofuscando-o, perguntou:

- É o Senhor, mesmo?   

- Sim, sou eu José. – Respondeu sem, sequer, mover os lábios.

Inteirando-se mais acerca daquela figura na proporção que se ia acostumando à forte luz que dela emanava, de súbito, indagou contrariado:

- Mas sou eu que estou aí! Então eu sou o Senhor, ou Senhor é eu? Que trapalhada é essa? Tô ficando doido ou é o delírio da fome?

Serenamente, a figura melhorada do próprio Zé lhe respondeu, mais uma vez, sem mover, sequer, um músculo da face. Apenas os olhos brilhavam, encharcados de envolvente luz:

- É que, ao contrário do que você imagina, não tenho forma alguma. As formas são transitórias. Sou eterno. Sou aquele que É e não aquele que está. Para tornar-me perceptível, plasmei no ar sua imagem. Que quer de mim?

- Se é Deus mesmo, sabe o que eu quero.

- Sei. Mas as regras são: Se deseja receber, peça. Se deseja saber, pergunte.

- Porque tanta miséria no mundo?

- O mundo tem tudo de que precisam para todos viverem bem. O porquê da miséria deve ser procurado entre vocês que a criaram e vêm alimentando-a ao longo dos milênios.

- Mas uma grande maioria não dispõe, sequer, de um pedaço de terra para nela trabalhar, enquanto outros têm milhares e milhares de braças improdutivas.

- Não dei terras a ninguém. Dei a todos, igualmente, um planeta repleto de belezas e riquezas.

- Mas é muita fome, injustiça, violência...  E o pior, mesmo, é essa seca acabando com tudo.

- E o que quer que Eu faça?

- Chuva! Mande chuva que Já melhora muita coisa.

- Você sabe como são feitas e funcionam as leis do seu país?

- Sei. São propostas, discutidas, ajustadas, votadas, aprovadas, colocadas em prática...

- Se suas leis, imperfeitas, envolvem todos esses trâmites, como me pede para mudar uma lei que, como Eu, é eterna, imutável e perfeita?

- Mas eu não pedi para mudar uma lei, apenas para mandar chuva.

- E você não aprendeu na escola que a natureza é regida por leis? E não sabe ser a seca um fenômeno natural? E não acha que é querer muito pedir para alterar minhas leis universais?

- É... O Senhor tem razão. Mas como faremos? Vamos morrer de fome e sede?

- Eu lhes dei algo muito mais valioso à vossa sobrevivência do que a água e o alimento...

- Então nos revele onde está.

- Dentro da vossa cabeça. Dei a vossa inteligência que, se bem utilizada, será capaz de resolver todos os desafios que a vida no planeta lhes impuser, inclusive, o problema da seca.

- É... Tem razão. Mas se um procura fazer a coisa certa, os que têm o poder cometem os maiores desmandos...

- Só quem os colocou no poder poderá tirá-los de lá. E Eu não fui! E se não fui Eu, não posso fazer nada, senão, estaria estruindo um dos maiores presentes que lhes dei.

- Que presente?

- O livre arbítrio.

- Desde que os coloquei neste planeta vocês sempre tiveram nas mãos (usando o vosso linguajar) a faca e o queijo. Querem, também, que corte a fatia e coloque em vossas bocas? Enfim, vocês querem ser homens construindo a vossa história com a vossa força de trabalho e inteligência acrescidas da minha ajuda, ou querem ser marionetes em minhas mãos?

- É... O Senhor tem razão.

- Sempre tenho. Vão cuidar da vida e do belo planeta que têm. Parem de ficar me pedindo para alterar as Leis da Natureza. Procurem usar da inteligência que lhes dei para melhorar os vossos sistemas e a vossa própria vida.

- Mas, Senhor... Não nos abandone.

- Sempre estive e estarei com vocês, manifestando-me através das minhas leis que regem desde a vida de uma formiguinha até as relações entre as galáxias.

- Senhor, por favor... – Sentindo uma abrupta mudança no ambiente, Zé abriu os olhos e percebeu que o mundo ao seu redor retornara ao normal.

Transtornado, levantou-se e procurou o caminho de volta para casa, mas faminto e fragilizado perdeu-se e foi encontrado no dia seguinte por um grupo de amigos liderado pelo amigo Chico Pedro que, preocupado com sua ausência passou a procura-lo.

Após aquele dia, Zé do Santo não foi mais o mesmo. Continuou a frequentar a igreja, mas convencido de que aquele não seria o caminho para minimizar a miséria do seu povo. Seu discurso tomou um rumo bem diferente, só que de forma serena, profunda e com um poder de persuasão de impressionar a qualquer orador experiente.

A estranheza maior das suas falas estava no fato de, tendo sido a vida inteira um crítico às religiões, passar a fazer constantes alusões à natureza e ao criador enaltecendo a perfeição das Suas obras e leis e chamando a atenção dos ouvintes para, através do uso da inteligência, corrigir os desvirtuamentos gerados pela ganância humana.

E assim, passou a aglomerar em torno de si mais e mais trabalhadores rurais. Em pouco tempo suas reuniões passaram a ocorrer no mercado público, pois contavam com a participação de um grande e crescente número de pessoas independentemente da categoria profissional. Além disso, falou em muitos outros sindicatos, até da capital.

Encontrava-se o sindicato por ele presidido prestes a instalar na região a primeira cooperativa de beneficiamento e comercialização de sisal quando, no meio da noite, três homens bateram a sua porta e o levaram, à força, para uma reunião em Natal. 

Na manhã seguinte, sem tomar sequer um xicara de café, foi colocado à frente de três homens mal encarados que passaram a interrogá-lo.

- Isso aqui vai se resolver bem rapidinho, basta você dizer quem está espalhando essas ideias comunistas lá naquele fim de mundo e tá tudo resolvido.

- Até hoje nunca falei nisso porque ninguém perguntou e porque se falasse ninguém acreditaria. Mas se querem saber de fato...

- Estamos aqui para isso. E quanto mais rápido disser, melhor pra você.

- Os senhores sabem que tem gente que faz pacto com o cão para aprender tocar ou para ganhar no jogo... Eu fiz o contrário, me encontrei com o Pai Eterno para pedir pelo fim da nossa miséria.

- Ah, sim! Todo mundo aqui entendeu tudo.  Aí ele disse: - Vá ser comunista, meu filho, que tudo se resolve. Não foi isso?

- Não senhor. Não foi nada disso.

- Senhor, ou o matuto aqui tá ruim do juízo, ou tá sofrendo de memória fraca, que não lembra nem o nome do seu chefe... – Falou o interrogador dirigindo-se ao seu chefe que se mantivera calado.

- Mas isso não é problema. A gente aqui tem remédio para memória, tem remédio para doido, tem tudo quanto é qualidade de remédio. Se ele quiser se encontrar de uma vez por todas com o seu criador, a gente tem um remédio. – Falou, fez uma pausa e continuou com voz de trovoada, dirigindo-se a Zé. -  E então, seu beradêro de merda, vai, ou não vai dizer quem são os comunistas que estão por trás dessas suas histórias?

- Não há mais o que dizer. Essa é a verdade, senhores. Não há comunista nenhum.

- Desçam com o matuto que aqui ele não vai cooperar... Mas lá em baixo ele coopera!

Passaram-se dois anos até que Zé voltasse para Mericó. Pouco se sabia sobre esta longa ausência. A conversa era que estava internado num hospital para doentes mentais, em Natal. A versão foi facilmente aceita pela maioria que passou a identificar naqueles discursos misturando sindicalismo e religião o início da sua maluquice.

Mas o Zé que voltou foi outro. Envelhecido uns dez anos, magro, pálido, desdentado e com aspecto de um verdadeiro doente mental. Sempre com uma caixa de comprimidos na cabeceira da cama, quando se esquecia de tomar um tinha pesadelos horríveis e quando tomava ficava, igualmente, inutilizado causando enorme pena aos que o conheceram ativo na luta por dias melhores.

Quanto ao sindicato que ajudara a fundar ia maravilhosamente bem: ampliara os serviços médicos e odontológicos, tinha um carro para transportar os doentes, dava cursos de tricô, bordado e crochê para as mulheres dos associados e, em tempos difíceis, distribuía entre os agricultores um arroz vermelho vindo dos Estados Unidos, chamado bogô, que aliviava a fome, mas era tão intragável que, um cachorro para comer precisava está com vários dias de fome ou, no mínimo, levar umas bordoadas.

Chico Pedro, ao reencontrar o amigo, derramou copiosas lágrimas ao ver o que sobrara do valoroso Zé do Santo.  E, mesmo diante da sua apatia, abraçando-o, falou dominado pela emoção:

- Meu irmão, o preço de encontrar com o Criador, às vezes, é muito alto. Quer exemplo maior do que Nosso Senhor Jesus Cristo?

Assustado, robotizado e com tremores nas mãos, Zé do Santo seguiu uma vida quase vegetativa, sobrevivendo com a família da caridade dos amigos e do sindicato que ajudara a fundar.


Aldenir Dantas
aldenir.d.c@hotmail.com

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Aldenir Dantas
13 Sep 2014 23 33
Meus caros, mais do que um grande prazer é um grande privilégio compartilhar ideias com esses blogueiros maravilhosos, sob a batuta do mestre Jomar Morais e a interação, através da leitura, dos amigos leitores. A todos, um grande abraço, acrescido da minha mais profunda gratidão.

Aldenir Dantas
Jorge Braúna
09 Sep 2014 22 54
Amigo,Aldeni.
Realmente, viajei na história do valoroso Zé do Santo. O Norte do nosso país está repleto de casos heroicos e tristes como o do Zé do Santo.
Jomar Morais
07 Sep 2014 18 39
A qualidade e a utilidade do Planeta Jota, atestada pela mensuração de audiência realizada pelo UOLHost, acontecem em grande parte devido ao nível de nossos blogueiros. É um prazer e um privilégio contar com todos vocês neste espaço. E uma alegria imensa poder oferecer aos nossos leitores conteúdo como este conto antológico de Aldenir Dantas.
Obrigado a todos. E obrigado aos amigos leitores que, dia a dia, aumentam essa corrente de ideias e atitudes.
JM - editor do Planeta
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