MENINOS DE MERICÓ
Postado em31 Jan 2015 00 06 HISTORIAS DE MERICO

Se alguém tivesse defendido esta causa, possivelmente Mericó figurasse no livro dos recordes como a cidade detentora das tardes mais amareladas do mundo.

Era de tal intensidade o dourado do seu entardecer que, se não houvesse uma correção automática no cérebro, achar-se-ia que a maioria das suas casas era amarela e, não, branca. Eram tardes mornas e formosas, mas de uma formosura melancólica que tocava até as almas menos compassivas.

Compondo uma paisagem singular com um daqueles crepúsculos exageradamente alaranjado, estavam os dois meninos sentados no barranco à beira da estrada na saída da cidade, envoltos pelos derradeiros raios do sol.

Contabilizavam os resultados de uma caçada por trás da rua grande. Frequentemente procuravam coisas atrás das ruas e aquela era a melhor de todas. Além das pessoas endinheiradas morarem ali, havia as bodegas de onde se atirava ao lixo os maços de cigarros vazios, matéria prima usada na confecção do dinheiro dos meninos.

O valor de cada cédula estava associado ao preço do produto. Dos maços de cigarros Continental sem filtro e Clássicos, os mais baratos, fazia-se cédulas que valeriam hoje um e dois reais. De Continental com filtro, hollywood e Arizonza confeccionava-se cédulas de valores intermediários. Já as das marcas Minister e Hilton equivaleriam hoje a cinquenta e cem reais.

Enquanto desfaziam e transformavam os maços de cigarros, os dois conversavam:

- Pai disse qui quando a cabra lá de casa dé cria de novo vai deixá um cabrito pra trocá numa monareta pra eu.

- Monareta deve sê tão caro.

- Mai vai sê uma monaretinha véia.

- E purquê ele num troca logo a cabra?

- Tais doido? E o leite do meu irmão piqueno?

- Pai todo mês traz presente pra noi, quando vem de Natal. 

- Mintiroso! Teu pai num é nem rico.

- Mintira nada! Pai num é rico, mai trabaia no carro do lixo. E no lixo de Natal tem muita coisa novinha que os povo avoa no mato. Aí ele cata umas e traz pra nói.

- E donde já se viu avuá coisa nova no lixo?

- È qui tu num sabe... O povo de Natal é rico. Joga as coisa fora ainda novinha... Tem carro fartano uma roda, buneca fartano uma perna. Eles num ajeita nada. Quorqué coisinha assim de nada, jé avua no mato e compra um novo.

- E sa gente morasse im Natal? Ia achá muita coisa boa no munturo, num ia?

- Ah, mê Deu... tu num sabe é de nada! Natal num tem munturo atrai das rua, não. Atrai das rua tem é rua e mai rua, inté...

- Mai dispoi dessas rua tudinha, deve de tê um munturo.

- Mai eu já disse qui num tem, teimoso!

- E tem o quê? Num tem rua atrai de rua até o fim do mundo...

- Há! Depoi de mai de um milhão de rua atrai da outra, tem... tem....

- Um munturo bem grandão. Cuma daqui inté Jaçanã...

- Me alembrei! Depois das rua tudim, tem é o má.

- É mermo... lá tem má. E diz qui o má é tão fundo qui num tem quem chegue no seu fim.

- É. A fundura até o fundo do ma é a merma daqui do chão inté o céu.

- Deve sê mermo.

- E sem munturo,  adonde o povo de Natal avoa os lixo e os pinico chei?  E quem num tem casinha no quintá, adonde faz os sirviço?

- Lá todo mundo tem casinha dento de casa ou no quintá. E o lixo eles bota na carada, aí o caminhão que pai trabaia passa e apanha.

- Um cagadô dento de casa, deve sê catingudo de mai, num é?

- Sei lá! Nunca vi, nem cherei! Mai deve ser mermo fedorento...

- Tu tem coisa, assim, qui nunca contou prá ninguém?

- Coisa assim de segredo? 

- Sim.

- Acho queu tem. E tu tem?

- Eu tem. Vambora fazê um negoço? Eu conto uma coisa a tu e tu conta uma coisa a eu...  Aí, só noi fica sabeno... Bora?

- Bora! Conta logo tu.

- Vou contá, mas se tu num contá também, vai vê s, visse!

- Conta aí, logo, homi.

- Um dia, quando eu crescê, eu vou me casá. E tem uma menina na iscola que é a mais bunita que eu já vi. Chega eu tem vergonha de falá cum ela. Eu quiria namorá e casá cum ela quando ficá grande. Se num fô cum ela, quero outa não. As outa é tudo umas minina réia sem graça.

- Quem e?  Eu cunheço?

- Cunhece. É da nossa classe. Nanã de Zé Santana.

- É mermo. Se parece uma bunequinha de loiça.

- Mai, cuma é bunita e o pai dela é mei rico, acho quela vai se casá é cum fi de rico.

- É mermo, né?

- É...  A gente inté vê fí de rico casano cum moça pobe muito bunita. Mas fia de rico casá cum rapaiz pobe, parece qui nun casa não.

- Mai tu pode ficá rico, aí namora e se casa cum ela...

- Ficá rico, cuma? Limpano mato cum meu pai no sitio de vovô?

- Não, home! Arrumano um imprego na prefeitura, ino pru sul, pá Sampalo...

- È... Pode inté sê.  Agora diz o teu.

- O meu que?

- Se façaa de besta, não! O teu segredo.

- Coisa besta...

- Mai tem de contá...

- Tem dia que nem pai nem mãe brigam cum eu, num acontece nada, mai dá uma vontade de chorá danada queu miscondo e vou choro sozim.

- Oxi! Cuma se pode chorá sem apanhá e sem doer im nada? Acho qui deve doê im algum canto e tu é qui num sabe...

- Dói in canto ninhum, não. E é mais nessa hora assim, de tarde, qui as casa fica mei amarelada, o céu fica amarelo, os mato vão ficano preto, o sino toca... Sei qui diacho é isso não...

-  E agora, tás cum vontade?

- Tô não. Né toda vida qui dá isso, não. Toda vida, essas hora fico mei assim, num sei cuma dizê... Mai vontade de chorá, hoje num tô não.

- Essa hora é mei isquisita, mermo. Parece que é a hora dos difunto.  Mai sinto nada não.

- O véi Jacó disse qui o sol essa hora sisconde nos oceano inté de manhã.

- Esse véi num sabe é de nada. Minha mãe disse qui o sol de noite vai pro Japão.

- E adonde é isso?

- É muito longe. Mai longe do qui o Sul e o Ri de Janeiro.

- Quanto dinheiro cunseguisse hoje?

- Micharia. Num dá nem cinquenta conto: trei de dez e quato de um. E tu?

- Pouco de mai. Achei só carteira de cigarro réi barato.  Ainda bem qui achei esse carrim. Tá só fartano os pneu, mai faço de burracha de chinela.

Numa curva distante surgiu, destacando-se na linha do horizonte, um homem de chapéu tangendo um jumento carregado de lenha. Um dos meninos esboçou um sorriso e, levantando-se, falou:

- Oba! Lá vem pai. Vou prá casa ajudá tirá a caiga e dá água pro burro. O bichim chega morreno de sede.

O outro também se levantou, deu um passo à frente e falou:

- Bora, queu vou ajudá.

- Apois bora logo! Pai traz pinha. Adispoi a gente vai chupá pinha.

E seguiram os dois, um com o braço apoiado no ombro do outro, iguais no tamanho, na magreza, na casa de taipa em que moravam na rua do açude e na certeza de que tinham um amigo.


Aldenir Dantas


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