Ano 23                                                                                                          Editado por Jomar Morais
 
 


 
 

 
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dialogofraterno.com
por ALDENIR DANTAS
Com pouco mais de 25 anos, casado com a bela e sonhadora Rosalina e pai
de três filhos, Chicó Ferreiro era um desses “faz tudo”. Forjava ferro,
remendava panelas de alumínio, consertava rádios, maquinas de costura,
pneus de bicicleta e o que mais aparecesse. Às vezes seus consertos
davam certo, às vezes, não. Mas, por ser muito prestativo, bem humorado e
servidor, sempre contava com a indulgência daquela gente simples de
Mericó. Contudo, isso não impedia de, vez por outra, alguém queixar-se dele,
devido ao mais grave dos seus defeitos: Não gostar de honrar seus
compromissos. Fosse esse uma xícara de açúcar tomada emprestada à
vizinha, fosse uma feira fiada na bodega.

Mas era tão bem humorado e, como diziam alguns, era tão sem vergonha e
descarado, que as vítimas acabavam rindo das suas coisas e, assim, jamais
arrumara uma inimizade por causa de suas famosas inadimplências. Claro
que, seu crédito em Mericó, praticamente, inexistia. Sua cantilena, mesmo
conhecida de quase todos, surtia um efeito devastador. E não era pelo
discurso, em si, mas pela riqueza da comunicação não verbal que lhe
imprimia, com gestos teatrais, modulação da voz e, vez por outra, algumas
lágrimas:

- Sabe lá, o senhor, o que é ser pego à dente de cachorro como um bicho do
mato! Pois é... Foi assim com minha bisavó! Ela era índia e foi arrancada
covardemente da sua gente e trazida à força pra labutar na fazenda... Cristão
nenhum do mundo é capaz de imaginar o que aquela coitada sofreu... De
tanta tristeza, passou 30 dias sem comer e sem falar... E de lá pra cá, meu
senhor, essa minha família é só sofrimento, um atrás do outro. E hoje essa
maldição de sofrer cai sobre mim... E sofro, não por mim... Sofro mais é
pelos meus pequeninos...  Sabe lá o senhor o que é a dor de ver seus
meninos pequenos chorando pra botar um punhado de farinha com açúcar
na boca e o pai não ter um tostão furado no bolso!

Com uma ou outra variação, essa história amoleceu muitos corações por
onde andara mas, em Mericó, já estava meio desgastada. Mesmo assim, vez
por outra, conseguia ele sensibilizar um incauto credor com um drama
doméstico acrescido de um gesto que se tornara marca registrada sua:
revirar os bolsos demonstrando não dispor de nenhuma moeda.

Alguns desconfiavam que seus bolsos eram semelhantes às mochilas de
mágicos. Se ele colocasse dinheiro ali e, no mesmo momento, diante de um
credor, precisasse revirá-los, não tinha nada dentro.

Havia, contudo, uma pessoa a quem Chicó nunca ousara enganar: Severino
Pezão, afamado por haver sido, em passado remoto, um dos melhores
servidores de Tião Capitão. Diziam que havia feito muita coisa errada a
mando do patrão e, até, por conta própria. Por isso, sua prosa era rara e
curta. Mas naquela noite, presenciando, uma animada conversa no bar sobre
bons e mal pagadores, não resistiu e gritou a todos pulmões:

- Homi, eu digo é que num existe má pagador. Existe é caba frouxo, que num
sabe cobrar o que é seu!

- Já sei, que o sinhô nunca emprestou nem vendeu nada fiado a Chicó
Ferreiro.

- Vendê eu num vendi, mas semana passada emprestei um dinheirim pra
feira pro coitado. Tava passano uma pricisão danada, com aquela meninada
pequena.  Mas ele vai me pagá adespois da menhã.

Os interlocutores se entreolharam disfarçando sorrisos e um, controlando-se
para não cair na gargalhada, repetiu:

- Pagar adespois da menhã...

- Isso mermo! E ai dele se num pagar. Se for priciso carrego inté o galo do
terreiro, mas no prijuízo, num fico!

- Pois, adispois da manhã, aqui, nessa hora, o sinhô diz a gente se ele
pagou.

- Apois tá certo! E seu chegar aqui de mão abanano, pago um lito de zinebra
com tira-gosto pra tudim!

E assim aconteceu. No dia marcado chegou Severino. Os presentes
apostavam na competência de Chicó e salivavam pensando no peba
apimentado que o dono do bar preparara, especialmente, para a ocasião.

- Pois num é que aquele cabueta num me pagou! Mas num pense que vai
ficá assim, não!

- Falou, arrancou uma pistola do cós, colocou em cima do balcão e berrou: -
Tá pra nascê no mundo um caba pra passá a perna nesse véi aqui! Vou
buscá meu dinheiro agora e s´ele num tivé trago, nem que seja, aquela mulé
bunita que ele num dá conta! - Falou e saiu a passos largos, esbaforido. Nem
ouviu o comentário entredentes de Dedé Ferreira:

- Mas num traga os minino, não, que é prijuízo!

O peba cheirava cada vez mais. O dono do bar inquietava-se pelo retorno de
Severino vislumbrando uma melhora no magro apurado do dia. Ansiosos, os
contendores já haviam tomado uma meia dúzia de aperitivos, quando o velho
adentrou à sala tranquilo, dando a entender que tudo correra bem. Afinal, não
trazia um galo debaixo do braço, nem uma mulher do lado. Antes que o
indagassem, falou:

- Homi decente esse tá de Chicó, mas teve a desdita de sê um sofredô!
Caba de cunversa aprumada. Tive uma boa prosa com ele.  - Falou,
fez uma longa pausa e concluiu dirigindo-se ao dono do bar:

- Bote aí um litro de zinebra pra gente mais o tira-gosto que tivé! Tudim por
minha conta!

Em meio à euforia da bebedeira, um dos presentes falou:

- Seu Severino, mas mostre de novo pra gente aquela pistola. Por aqui,
ninguém nunca viu coisa parecida!

- Vendi pra Chicó Ferreiro. Daqui a um mês ele me paga o dinheiro da feira
mais a pistola.

Um inadimplente
em Mericó