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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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JM descansa no Distrito de Lazer de Toronto, tendo ao fundo a CN Tower. À direita, o Quartier Latin de Montreal, onde se ouve português em cada esquina, e o esquilo dos parques: coisas do Canadá
Os canadenses e milhões de estrangeiros acolhidos nesse país de muitas
belezas construíram uma sociedade que respeita o homem e o ambiente
CHEGUEI A TORONTO, a maior cidade do Canadá, numa madrugada de outono e me surpreendi com a paisagem enquanto o avião realizava os procedimentos para o pouso. Como uma cidade, famosa por sua arquitetura futurista em edifícios envidraçados, podia ser tão escura quando vista do alto num fim de noite? A comparação com Nova York e Paris foi imediata e, assim, um certo gostinho de frustração apareceu logo no início de meu périplo mochileiro pelo Canadá e os Estados Unidos, em outubro passado. (A matéria sobre os EUA foi publicada na edição passada e ainda pode ser acessada neste PJ) Horas depois, ao tomar o metrô para o Entertainment District, o bairro onde eu ficaria hospedado, acabei entendendo o paradoxo estético.
“Lights out Toronto!”, dizia um cartaz afixado no trem, conclamando a população a participar da campanha para salvar da morte milhares de aves migratórias que cruzam a região naquele período do ano. Patrocinada por uma ONG de proteção às espécies silvestres e apoiada pela prefeitura de Toronto, a campanha sugere que se apaguem, à noite,  todas as luzes desnecessárias em edifícios e residências, já que a luminosidade artificial desorienta os pássaros e os levam a trombarem com as estruturas dos prédios. Pelo visto, Toronto inteira decidiu aderir.
O CANADÁ É ISSO AÍ. Uma amostra da civilização do futuro - um lugar onde pessoas e instituições conseguiram estabelecer uma saudável convivência entre tecnologia, economia aberta e valores humanos. Em quantos países do mundo um apelo em favor da vida animal alcançaria tão maciça adesão? Certamente pouquíssimos ou, talvez, nenhum outro. Submetido a temperaturas gélidas durante quase metade do ano - no inverno há regiões do país em que os termômetros assinalam até 40 graus negativos -, o Canadá sedimentou uma sociedade  de conforto e bem-estar em que o respeito aos direitos dos cidadãos e a cortesia das pessoas parece permear quase todos os setores e quase tudo o que se faz por lá.
Cenário cosmopolita, construído com a participação de milhões de imigrantes de todos os continentes, o país parece distante das lutas separatistas que, na década de 70, acirraram os ânimos de canadenses colonizados por britânicos e por franceses. Reconciliado com sua origem multicultural, é um raro mosaico de raças e culturas.
O CARTÃO POSTAL dessa diversidade étnica é Toronto, cidade de  mais de 3 milhões de habitantes  que desde o batismo parecia predestinada a ser um pólo cosmopolita. Toronto na língua dos ancestrais indígenas quer dizer “lugar onde todos se encontram”.  É o coração do Canadá de formação britânica e a melhor porta de entrada no país, repleta de espigões de design ousado aos pés da CN Tower, a torre mais alta do mundo, com 553 metros de altura equivalentes a 120 andares, emblemática da Babel que se exibe nas ruas em diálogos e letreiros em inglês, francês, grego, italiano, espanhol, chinês, coreano, hindi, português... ah, deixa pra lá, não dá pra nomear tantos idiomas.
É uma cidade jovial mesmo nos dias cinzas do outono, com suas pousadas para backpackers (mochileiros) sempre coloridas e as galerias do Path, o shopping subterrâneo de 27 quilômetros de extensão e três andares submersos, com o seu desfile de novidades e muita gente descolada. E, claro, é também um lugar de encantos naturais revelados em dezenas de parques, povoados de esquilos, e, sobretudo, na imponência do lago Ontário e suas inúmeras ilhas.
Toronto é um centro financeiro e um centro gastronômico que reflete em sua culinária  diversificada as tradições de 60 bairros comunitários de imigrantes. É também um núcleo universitário e de ensino de línguas, freqüentado  por milhares de estudantes de todo o mundo, o que explica as suas muitas pousadas e o brilho de seu Entertainment District, lugar de bons cinemas, teatros, bares, restaurantes e livrarias nas proximidades da CN Tower.
Se não bastasse, a cidade está a apenas a poucas  horas de ônibus de outras duas jóias urbanas do leste canadense, incrustadas na área de colonização francesa: Montreal e Quebec, a cidade mais antiga das Américas. A apenas 70 quilômetros de Toronto, estão as  famosas cataratas do Niágara que, mesmo acanhadas diante da exuberância das do Iguaçu, no Brasil, são um espetáculo imperdível para quem visita o Canadá antes que elas congelem no inverno.
MONTREAL FICA NUMA ILHA do rio Saint Lawrence, rodeada por pequenos municípios. No total, são 3,5 milhões de habitantes, entre os quais são os jovens que se destacam colorindo universidades e ruas da parte nova da cidade, de vida cultural intensa. Montreal é a cidade dos festivais. A língua local é o francês, mas o inglês também é bem-vindo e de conhecimento geral. Na área do Plateau de Montréal, pode-se ouvir até o português. É lá que se concentra a colônia portuguesa, imensa no Canadá, com suas tradicionais padarias, supermercados e restaurantes, coladinhos aos empreendimentos de italianos, gregos, chineses e indianos. Os restaurantes são uma marca da cidade: o hábito francês de comer fora lota mais de 5 mil estabelecimentos na hora do almoço.
O campus da Universidade de Quebec em Montreal, junto à principal rodoviária (Station Centrale de l´Autobus) é um divisor de águas na diversão noturna. De um lado está o Quartier Latin, uma concentração de restaurantes, bares e cinemas. Do outro a rua Ste. Catherine também com  muitos cinemas e teatros, mas recheada de casas de strips, bares e hotéis para o público GLS, muitos roqueiros e , aqui e ali, um cheirinho de maconha.
A partir desse ponto pode-se alcançar a parte antiga da cidade, a Vieux Montréal, numa caminhada de 20 minutos, cruzando o Chinatown. Mas há várias estações de metrô nesse percurso que levam  a áreas de importância turística e ao McGill, a principal entrada do shopping subterrâneo, que em Montreal tem 29 quilômetros de extensão.
SERIA IMPERDOÁVEL chegar até Montreal e não ir a Quebec, a cidadezinha pacata que transpira história em sua área mais antiga. Ainda protegida por muralhas, canhões e a Citadelle, uma enorme fortaleza em forma de estrela erguida pelos antigos colonizadores franceses (e concluída pelo britânicos) para se defenderem dos pelotões americanos, Quebec é o melhor retrato da América francesa. Não é um lugar para quem busca agito noturno, mas a tranqüilidade de um cenário histórico, repleto de arte e conforto. Pode ser um programa de um dia, concentrado na Vieux Québec, uma área  que se alcança a pé, a partir da rodoviária, desde que visitante esteja disposto a caminhar 15 minutos, serpenteando uma pequena ladeira.
As ruas estreitas de paralelepípedos e casinhas do século XVIII com muitas janelas da Vieux Québec transformam-se, principalmente nos finais de semana, em pontos de artesãos que exibem sua arte em  pinturas, couro e metal. A caminhada pode estender-se ao largo do Château Frontenac, um castelo centenário que abriga um hotel requintado de 618 quartos, juntinho à muralha fortificada e com um belo cenário de pôr-do-sol no rio Saint Lawrence,  continuando até a Citadelle, 300 metros à direita. A fortaleza é o melhor ponto de observação da cidade e do rio.
Em cidades como Quebec, com baixo índice de imigrantes, um brasileiro pode ter a sensação de que à frieza do clima se soma a do excesso de formalidade dos nativos, uma certa falta de calor humano à francesa. Num dia chuvoso, como o que enfrentei ao chegar a Quebec, esse traço parece mais acentuado. Mas isso não compromete a viagem nem as boas lembranças que ficam do Canadá, um país que  tem muito a nos ensinar sobre civilidade, qualidade de vida e convivência.  
ANOTE AÍ:
* Quem entra no Canadá pelo Pearson International Airport, a 24 quilômetros do centro de Toronto, só paga táxi se quiser. No pátio do aeroporto há um ponto da linha expressa 192 (Airport Rocket), com ônibus partindo a cada 20 minutos para a estação Kipling do metrô. As três linhas do metropolitano interligam os principais bairros e pontos turísticos da cidade. O tíquete do ônibus, ao preço de 2,25 dólares canadenses, dá acesso ao metrô. O tíquete unitário do metrô custa 2,50 dólares.
* Se você quer ir às cataratas do Niágara, melhor contatar uma pousada estudantil. A excursão de um dia - incluindo paradas em vinhedos e pequenas cidades - pode sair em torno de 40 dólares, pouco mais da metade preço cobrado pelas agências turísticas tradicionais. A Canadiana Backpackers, na 42 Widmer St, é uma boa opção de busca.
* O Canadá tem alíquotas de impostos mais altos que os Estados Unidos. Assim, apesar do câmbio mais favorável aos brasileiros, nem sempre é vantagem fazer compras - principalmente de eletrônicos - em cidades canadenses, se seu roteiro inclui Nova York ou outra grande cidade  dos Estados Unidos. Estrangeiros podem pleitear no aeroporto a devolução das taxas aplicadas a compras feitas no Canadá, mas o processo burocrático não ajuda.
TORONTO  |  beleza multiétnica
Relax em Niágara
Encantei-me com o arco-íris cortando a tromba de chuviscos de uns 80 metros que emerge da cachoeira principal do rio Niágara, a 70 quilômetros de Toronto.  Os turistas aventuram-se no barco que se aproxima da queda d´água.  À noite, o espetáculo continua quando se acendem holofotes multicores em pontos selecionados do rio. Tive a sorte de ficar lá na primeira noite da Lua cheia, um adicional de beleza que dá brilho às águas do Niágara.

JM e a  tromba do Niágara
Aventura de turista
Fátima e a CN Tower
Uma maravilha
A CN Tower, torre mais alta do planeta, é uma das sete maravilhas do mundo. O acesso custa 21 dólares. Até chegar ao elevador que conduz ao mirante, o visitante passa por um túnel com fotos e telões que antecipam as vistas que se tem do alto - a cidade de Toronto, o imenso lago Ontário e suas ilhas.
Museu Real
Um passeio pelo Queen´s Park é um dos bons programas ao ar livre em Toronto. É lá que está o Royal Ontario Museum,  com suas peças de arte e arqueologia. Desconto de 50% no ingresso às sextas-feiras.

Fachada do Royal Museum
Canadiana Backpackers
Sandra, Nilesh e Fátima
Eterna juventude
Toronto tem uma enorme população estudantil originária de vários países. Vale a pena ficar hospedado em um dos muitos hostels (pousadas) dedicados a essa clientela. São baratos, têm chá gratuito, internet tradicional e wi-fi e programação de lazer. Eu a e a Fátima ficamos na  Canadiana Backpackers, organizada, limpa e alegre, com diária no AP duplo a 60 dólares. Uma das gerentes é a portuguesa Sandra, que prefere não se comunicar em português, sem deixar de ser prestativa. Acabei sendo ajudado bastante pelo simpático atendente Nilesh, um indiano muito gentil.
MONTREAL  |  alegria latina
Encantos à antiga
Passear pela Vieux Montréal, a área antiga da cidade, com suas praças, palácios e casarões do século XVII, é programa obrigatório. É lá que estão o majestoso edifício do Hôtel de Ville (Prefeitura), a basílica de Notre Dame, a praça Jacques Cartier (com estátua do almirante Nelson à maneira da Trafalgar Square de Londres) e o velho porto, cortado por um calcadão de 12 quilômetros, ótimo para caminhadas. Vale apreciar o por-do-sol no rio Saint Lawrence no mirante do porto.
Prefeitura de Montreal
Fátima, JM e o pôr-do-sol
Lee: profeta da gentileza

Portal de China Town
Atrações de rua
Mesmo nos dias cinzentos e frios do outono, Montreal manifesta alegria juvenil, principalmente nas proximidades do Quartier Latin. Tipos excêntricos, como o "profeta" Lee, são encontrados nos quarteirões da Universidade de Quebec em Montreal (Uqam) pregando cultura alternativa. Lee faz discursos em favor da gentileza entre os homens. Cantou uma canção para mim e, por causa disso, acabei entrevistado pelo canal de TV Global, que na ocasião fazia matéria sobre o "profeta". Outra área interessante é o Chinatown, o bairro chinês e coreano.
QUEBEC  |  marcas da história
Arte setecentista
A rodoviária de Quebec é uma das mais modernas do Canadá, mas está ligada a um palácio do século XVII, onde funciona uma galeria comercial.
Arte na rodoviária
JM e a muralha de Quebec
Murais ornamentam ruas
Muralhas
Toda a Vieux Québec, a parte histórica da cidade, é cercada pela enorme muralha de pedras graníticas que no passado protegia a área dos ataques dos americanos. O trecho principal, junto ao rio Saint Lawrence, ainda conserva uma formação de canhões do século XVIII, a cerca de 300 metros da Citadelle, a grande fortaleza. Outra atração de Quebec são os murais pintados nas paredes de empresas em vielas da área antiga.
O grande forte
O túnel de entrada da Citadelle, a grande fortaleza em forma de estrela iniciada pelos franceses e concluída pelos britânicos, dá acesso a um quartel do exército canadense e a um museu militar. No verão (julho/setembro), os visitantes podem assistir a cerimônia da troca de guarda.
Entrada da Citadelle
* Ao comer em um restaurante não esqueça que a gorjeta mínima é 15% sobre o valor da conta, a menos que você queira conhecer o outro lado da cortesia canadense. Se não quer pagar gorjeta, procure uma rede de fast food como a Tim Hortom - com uma boa variedade sanduíches, sopas e pratos rápidos - ou um self-service de algum coreano nas praças de alimentação do Eaton Centre, em Toronto, ou do McGill, em Montreal.
* Outubro e novembro, os meses em que estive no Canadá, são bons períodos para visitar o país. A temperatura já é baixa, chega a 3 graus à noite nas cidades do leste (a área que visitei), mas nada comparável aos 25 graus negativos de janeiro. Pude apreciar a linda paisagem de início de outono: um painel multicor de folhas verdes, amarelas, vermelhas e marrons. Vale a pena recolher no chão as folhas secas de maple, que são um símbolo canadense, exibido na bandeira nacional. Elas estão em toda parte, dando um visual diferente a parques e jardins com o seu recorte especial e coloração vermelha.
* Há ônibus  partindo diariamente de Toronto, Montreal e Quebec para Boston e Nova York. Vale a pena esticar o roteiro até os Estados Unidos. O preço é barato e os procedimentos no posto terrestre da Imigração americana em Burlington é bem menos complicado do que nos aeroportos. A passagem Montreal-Boston pela Greyhound custava 84 dólares em outubro de 2005.
* Na viagem Toronto-Montreal (8 horas) dê preferência aos ônibus da companhia New Orleans. São mais novos e mais confortáveis que os da Greyhound e estão equipados com ponto para ligar notebook e mesinha para lanche. A passagem pode custar até 93 dólares, senão for comprada com antecedência.
* Em Montreal, se não tem reserva em hotel, não esquente. A rua Saint Hubert, ao lado da rodoviária e junto ao Quartier Latin, tem dezenas de pequenos hotéis, simples, mas confiáveis. Fora da alta estação, sempre têm quartos disponíveis. Fiquei hospedado, com a minha mulher Fátima, no Elysée, do simpático cambojano Van Nahm. Tranqüilo, novo e confortável. Apartamentos amplos e com tecnologia a apenas 60 dólares, depois de alguns minutos de pechincha.
* Para se dar bem numa viagem mochileira e com pouco dinheiro pelo Canadá e os Estados Unidos, recomendo o guia especial do Lonely Planet: Usa & Canada on a shoestring.
O charme correto do Canadá
por Jomar Morais


Suba com a gente até o mirante da CN Tower





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No largo do Châteu Frontenac, canhões históricos instalados para conter o avanço dos ianques
03/2007
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