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Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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O poder do mito


Em todas as épocas e em toda parte, o homem compartilhou a idéia do sagrado e encontrou nas mitologias uma forma de resolver seus conflitos


Há 50 000 anos, os nossos ancestrais conhecidos como homens de Neandertal, nômades que vagaram entre a África, a Ásia e a Europa, tornaram-se as primeiras criaturas a sepultar seus mortos com cerimônia. Junto com os corpos, eles enterraram ferramentas, armas, roupas e outros suprimentos que deixaram para a posteridade uma dúvida: teriam os nossos primos da Idade da Pedra equipado os defuntos com utensílios por acharem que, além do túmulo, eles continuariam a viver?

É significativo que tais esboços de prática religiosa, os mais antigos de que se tem notícia na pré-história, estejam associados a esse grupo de homo sapiens. Segundo Andrew Newberg, em seu estudo sobre o "circuito espiritual" do cérebro, eles foram os primeiros a possuir uma estrutura cerebral suficientemente poderosa para compreender a morte, dotada de um lobo parietal semelhante ao nosso e, portanto, habilitada a processar a função causal e binária necessária às construções mitológicas. Em resumo: sabiam diferenciar a vida da morte e transcender a esta com a crença na imortalidade. Milhões de anos antes, outro ancestral humano, o macaco australopithecus, também chegou a exibir um lobo parietal desenvolvido mas, ao que parece, jamais foi capaz de produzir algum tipo de cerimônia elaborada. Faltava-lhe a estrutura neuronial necessária à linguagem, outro detalhe fundamental no desenvolvimento dos mitos.

Com o lobo parietal, possibilidades opostas - como, por exemplo, vida-morte, existência do predador-não existência do predador -, foram resolvidas através das mesmas funções cognitivas que permitem à mente perceber o mundo físico, fato que resultou na transformação de idéias em convicções e de possibilidades lógicas em crenças viscerais. As narrativas elaboradas nessas ocasiões formataram assim os mitos, em cuja moldura simbólica seres e situações opostos, como heróis e monstros ou céu e inferno, são reconciliados pela ação de poderes espirituais, liberando o ser humano de suas preocupações.

O temor da morte criou as religiões, acredita a maioria dos antropólogos. Uma das poucas vozes discordantes é a de Pascal Boyer, professor da Universidade Washington, em Saint Louis, Estados Unidos, embora também ele reafirme a universalidade de algumas imagens mitológicas. No livro Religion Explained (A Religião Explicada), ainda não traduzido para o português, Boyer contesta os que vêem nos mitos quase uma fatalidade biológica e considera a suposta universalidade de tais conceitos apenas o efeito de uma seleção aleatória de ocorrências. A experiência, afirma, teria gerado um gigantesco domínio de informação que o homem só parcialmente conseguiu preservar, em meio a milhões de mensagens perdidas, esquecidas, ignoradas, distorcidas e algumas vezes inventadas por nada. Formou-se então, segundo Boyer, uma sopa de representações e mensagens das quais só algumas acabaram se fixando no imaginário coletivo e se apresentando, senão de forma idêntica, pelo menos conforme certos padrões em diferentes épocas e lugares. Seria o caso de alguns mitos religiosos.

O caráter universal das mitologias, porém, é destacado por Joseph Campbell, o renomado especialista em religiões comparadas, autor dos livros As máscaras de Deus e O poder do mito. Virgens que concebem enviados divinos, dilúvios, expulsões do paraíso, regiões celestes e infernais, tentações demoníacas e ressureições não são exclusividade da Bíblia judaico-cristã. São argumentos mitológicos que se repetem nas diversas tradições religiosas do planeta e têm origem, segundo Campbell, em aspirações e crenças comuns. Veja-se, por exemplo, o episódio da tentação de Cristo. O Evangelho narra que Jesus retirou-se para orar no deserto e, ali, durante 40 dias foi assediado por Satanás, disposto a desviá-lo de seu propósito mediante a oferta de poder e prazeres. Cristo sobreviveu ao cerco e retornou fortalecido para cumprir sua missão. Cinco séculos antes, conforme a tradição budista, o jovem príncipe Sidarta enfrentou provação semelhante. Ao exilar-se na floresta para meditar, durante 40 dias ele combateu as insinuações do demônio Mara, obstinado em tirá-lo de sua busca. Sidarta resistiu e alcançou a meta da iluminação espiritual, tornando-se Buda.

São igualmente universais certos elementos da ritualística religiosa, como a música e os movimentos ritmados, importantes na estimulação do sistema límbico. E o transe, o ápice do processo de estimulação, apesar de sua discriminação pelo racionalismo ocidental e por parte das religiões organizadas. No passado remoto, toda a humanidade experimentou transes provocados pelo canto, pela dança ou por plantas alucinógenas. A decadência do costume - ainda preservado pelo espiritismo, os cultos afro-brasileiros, os evangélicos pentecostais e os católicos carismáticos - pode ser nociva ao homem, segundo alguns estudiosos.

"Trata-se de uma perda perigosa", diz o doutor em antropologia da religião José Jorge de Carvalho, da Universidade Brasília. "As pessoas que praticam o transe formam uma grande reserva de autocontrole. Muitas são capazes de enfrentar situações de adversidade extrema sem se estressarem." A ênfase dada à racionalidade na civilização moderna privilegia as atividades do córtex cerebral mas, de acordo com José Jorge, o córtex é eficiente para mapear e controlar o mundo externo, não para lidar com o mundo interior, o mundo das emoções. No transe, o "cérebro emocional" é exercitado.

No passado, acredita Newberg, o sentimento e as práticas místicas foram fundamentais para a própria sobrevivência e evolução da humanidade, ainda que as religiões estejam associadas aos conflitos mais sangrentos da civilização. Os rituais ajudaram a reduzir a agressividade dos membros do grupo e a estabelecer laços sociais fortes entre eles. Evitaram a dispersão e facilitaram o esforço coletivo como nenhum outro recurso. "O poder dos mitos está no fato de que seus símbolos e temas nos conectam à parte mais essencial de nós próprios de um modo que a lógica e a razão, sozinhas, não conseguem fazer", diz Newberg.
Programado para a fé


Imagens do cérebro, obtidas durante sessões de preces
e meditação, ajudam a neuroteologia a desvendar os mistérios
dos fenômenos espirituais e explicar a sua base biológica
Por Jomar Morais   
No início, é só uma sensação de crescente tranqüilidade. Pequenos incômodos ambientais, como o zumbido de um mosquito ou a elevação da temperatura, deixam de ser obstáculos à concentração. A ansiedade cede lugar à observação serena da vida, a uma paz indefinível. Então, numa súbita e indelével onda tem-se a impressão de que o corpo e a própria individualidade se dissolveram. Não mais existe limite entre o indivíduo e o resto do mundo, não mais há tempo nem espaço. É como se o universo inteiro pulsasse no fundo do ser sem fronteiras. Uma "iluminação" repentina parece esclarecer todas as coisas.
Delírio? Mergulho numa dimensão que está além da realidade concreta? Estranha experiência essa na qual a mais básica das percepções humanas - a própria noção da existência do "eu" e sua separação do mundo físico - evapora-se como a neblina numa manhã de sol. O Dalai Lama já passou por isso (E, muito à vontade, repete a dose diariamente). No século XII, São Francisco de Assis, o santo do mundo natural, experimentou as mesmas sensações. Chico Xavier, o médium brasileiro falecido no dia 30 de junho passado, conhecia o fenômeno desde criancinha. Na verdade, não existe uma única religião no planeta sem casos do gênero para narrar. Mas, afinal, o que é esse estado alterado de consciência tão constante nos fundamentos de todos os credos e no da própria civilização? A resposta pode estar na mais recente iniciativa da ciência para explicar os eventos místicos, antes rotulados de sobrenaturais: a neuroteologia.
O hábito de cientistas estudarem as experiências religiosas não é novo, mas durante muito tempo o rigor do método científico foi utilizado praticamente para sepultar as tentativas de se levar a sério a ocorrência dos chamados fenômenos espirituais. A psiquiatria e a psicologia do início do século XX os incluíram entre as patologias da mente. Pesquisadores da área biomédica raramente se preocuparam com o assunto. "Apesar de sua importância na vida das pessoas, a religião sempre foi tratada com indiferença ou apatia pela maioria dos psicólogos e neurocientistas", diz David Wulff, psicólogo e professor do Wheaton College em Massachussets, Estados Unidos. Com a neuroteologia, está em curso uma mudança de atitude radical. A partir de imagens obtidas na intimidade do organismo por equipamentos de última geração - como é o caso dos tomógrafos guiados por feixes de pósitrons, as antipartículas de elétrons -, um grupo de pesquisadores procura agora entender o complexo relacionamento entre espiritualidade e cérebro, lançando as bases do que vem sendo considerado uma biologia da fé.
Não se trata de conversão dos homens de ciência às crenças milenares. Eles continuam exigentes como antes e buscam provas factuais, passíveis de confirmação em experimentos realizados por laboratórios independentes. A diferença consiste nas novas técnicas de investigação e na importância crescente atribuída a esse tipo de pesquisa, num esforço para decifrar alguns dos maiores enigmas da humanidade. Para isso, certos cientistas não têm hesitado sequer em se transformar em cobaias de seus próprios estudos. Eles se submetem ao fenômeno da consciência alterada durante transes naturais ou provocados, a fim de avaliarem nas entranhas a sensação de estar fora do espaço e do tempo relatada pelos religiosos. E ao retornarem à normalidade, quase sempre trazem consigo alguma descoberta.
Nessas ocasiões, um místico sempre dirá, de imediato, que se encontra na presença de Deus ou de uma entidade espiritual. Um cientista pode ter uma resposta diversa, como ocorreu ao neurologista americano James Austin, que há 20 anos experimentou a percepção de unicidade com o universo - tal como descrita no início desta reportagem -, enquanto esperava o metrô numa estação de Londres.
Austin apreciava o rio Tâmisa fluir quando tudo aconteceu, de repente: sumiram o senso de individualidade e separação do mundo físico e ele sentiu-se fundido aos edifícios, ao rio e às nuvens, em meio a uma sensação de eternidade. Foram segundos infindáveis de deslumbramento. "Todos os meus receios, inclusive o medo da morte, desapareceram. Eu havia alcançado a compreensão da natureza última das coisas", revelou Austin, há três anos, no livro Zen and the brain (O Zen e o Cérebro), publicado pelo Instituto de Tecnologia de Massachussetts, o MIT, e ainda não traduzido para o português. Para o neurologista, no entanto, o extraordinário fenômeno só o conduziu a uma conclusão: "Eis aí uma prova da existência do cérebro".
O estudo de Austin tem o mérito de ser um dos pioneiros na nova vertente de pesquisas dos eventos místicos, mas está longe de encerrar o assunto. De lá para cá, vários outros experimentos foram anunciados por cientistas de universidades renomadas, como Harvard e Columbia, a maioria baseada no mapeamento do território cerebral durante os estados de meditação profunda e oração. Uma das incursões mais bem sucedidas foi realizada por dois pesquisadores da Universidade da Pensilvânia, também nos Estados Unidos: o radiologista Andrew Newberg, e o psiquiatra Eugene d´Aquili, falecido há dois anos, cujos dados e conclusões estão reunidos no livro Why God won´t go away (Por que Deus não vai embora), ainda sem tradução no Brasil. Graças às imagens de tomografia, eles conseguiram identificar o que seria o circuito espiritual do cérebro e esclarecer como os rituais religiosos e similares costumam ativar esse conjunto de componentes. É um passo muito além das técnicas que vinham sendo utilizadas desde os anos 60, quando as pesquisas dos fenômenos místicos se intensificaram. Antes, podia-se medir a alteração das ondas cerebrais - de beta para alfa - durante as experiências contemplativas, mas não se sabia porque a mudança ocorria nem que áreas do cérebro eram responsáveis por isso.
Newberg e Aquili avaliaram o desempenho cerebral de oito praticantes budistas, durante sessões de meditação, e o de um grupo de freiras franciscanas, enquanto estas rezavam fervorosamente durante 45 minutos. A maior novidade surgiu por conta das imagens do lobo parietal superior, a área do cérebro localizada na parte traseira do crânio. Constatou-se que, no transcorrer das meditações, a região reduzia gradualmente sua atividade até mostrar-se totalmente bloqueada no momento de pico, aquele em que o meditador experimenta a sensação de unicidade, cerca de uma hora após o início da concentração. Surpresa! Afinal, é exatamente essa a área do cérebro que, em estado normal, proporciona ao indivíduo o senso de orientação no espaço e no tempo, bem como a diferenciação entre o próprio corpo e a individualidade e os demais seres e coisas. É como se, privados de impulsos elétricos, os neurônios do lobo parietal - os quais, imaginava-se, nunca dormiam - desligassem os mecanismos das funções visuais e motoras do organismo. Quando a experiência foi repetida com as franciscanas - cujas rezas enfatizam mais palavras que imagens -, registrou-se uma excitação da região associada à linguagem, na base do lobo parietal, mas também elas tiveram os impulsos da área de orientação bloqueados ao atingirem o êxtase místico.
O que os budistas e as freiras sentiram não é resultado de auto-sugestão ou de um quadro patológico, asseguram os pesquisadores. É algo real, baseado em eventos biológicos. "O sentimento de unicidade parece paralisar os receptores sensórios da região parietal", diz Newberg. Com isso, não há saída para o cérebro impossibilitado de traçar ou identificar fronteiras senão perceber o "eu" como um ente expandido, ilimitado e unido a todas as coisas. A sensação de unicidade, porém, é apenas uma - certamente a mais marcante - das impressões causadas pelas experiências místicas profundas. Os êxtases incluem ainda uma intensa alteração emocional, com expressões de alegria e pavor diante de algo que se afigura de enorme significação para quem vivencia o fenômeno. E, nesse aspecto, as imagens da intimidade cerebral fazem mais revelações.
As tomografias dos lobos temporais, onde repousa o chamado "cérebro emocional" ou sistema límbico, mostram uma atividade redobrada dessas áreas durante as experiências contemplativas, o que ajuda a explicar as marcas deixadas por tais eventos na personalidade dos praticantes. Formado numa etapa remota da evolução, quando surgiram os répteis, o sistema límbico está relacionado às emoções e reações instintivas. Nos humanos, os sentimentos primitivos processados por seus três componentes - o hipotálamo, a amígdala e o hipocampo - são integrados com as funções cognitivas superiores produzindo assim uma ampla, complexa e variada experiência emocional. Cabe ao sistema límbico monitorar nossas experiências, atribuindo a cada uma delas um valor sentimental, o traço emotivo que permanece na memória e, não raro, pode ser a causa de fortes mudanças de atitude.
Você certamente já ouviu falar de alguém que alterou radicalmente os hábitos e o modo de ver a vida depois de escapar ileso de um acidente ou após ser alvo de uma demonstração extrema de amor num momento de dificuldade. Em escalas diferentes, eu e você certamente já fomos protagonistas de cenas do gênero, nas quais o sistema límbico assume o papel de diretor da peça. No terreno da religião isso é ainda mais freqüente e decisivo. O judeu Saulo, por exemplo, comandava uma blitz policial para prender líderes cristãos, no século I, quando experimentou um transe durante o qual viu o próprio Cristo a propor-lhe uma nova vida. Depois disso, convertido, tornou-se o apóstolo Paulo, o grande responsável pela propagação global do cristianismo.
A participação do sistema límbico nos fenômenos espirituais é tão evidenciada que alguns estudiosos o rotulam como o "transmissor de Deus". Sabe-se agora que uma intensa atividade elétrica nos lobos temporais acompanha o êxtase místico, detalhe que leva certos pesquisadores a considerar uma conexão entre o fenômeno religioso e o ataque de epilético, quando idêntica atividade dos lobos é registrada. Não existe nada conclusivo sobre tal hipótese, mas uma engenhoca concebida para testá-la - um capacete que emite descargas elétricas, inventado por Michael Persinger, da Universidade Laurentian, em Sudbury, Canadá -, confirmou que estímulos elétricos na estrutura do sistema límbico podem provocar alucinações, a sensação de estar fora do corpo e o senso do divino. Outras experiências de estimulação da estrutura límbica, feitas durante cirurgias do cérebro, também constataram a ocorrência de sentimentos religiosos em alguns pacientes.
A influência decisiva do "cérebro emocional" nos eventos místicos, diz Newberg, pode esclarecer ainda por que os rituais são uma prática tão importante nas religiões. Os movimentos estilizados e repetitivos, os símbolos como a cruz e as imagens sagradas e os cânticos usados nas cerimônias religiosas as diferenciam das ações cotidianas. Assim, segundo Newberg, ajudam o cérebro a percebê-las como eventos mais significativo. Esses acessórios disparam o mecanismo do sistema límbico, ora produzindo alegria e harmonia, ora tensão e medo, facilitando a transição para os estados alterados de consciência. O mesmo ocorre quando se medita, pois a meditação tanto pode acalmar quanto excitar a estrutura límbica, contribuindo para a intensidade da experiência.
Os fenômenos transcendentais, ao contrário do que se imagina, não estão restritos aos círculos de iniciados. Repetem-se corriqueiramente entre pessoas comuns, mesmo aquelas que não têm a prática religiosa como hábito. Na década passada, uma pesquisa do Instituto Gallup apurou que 53% dos americanos adultos admitiam já ter vivenciado um momento de súbito despertar espiritual ou insight, um lampejo intuitivo. Os relatos dessas experiências aumentavam com a idade, a educação e a renda das pessoas ouvidas. No Brasil não existem estudos específicos sobre o tema, mas é razoável admitir-se que uma sondagem do gênero poderia registrar percentuais ainda maiores que os da pesquisa americana, se considerarmos que a crença em Deus é praticamente uma unanimidade entre os brasileiros - 99% da população, segundo apurou o Instituto Vox Populi no semestre passado - e o país é um celeiro mundial de religiões mediúnicas.
Quando se esmiuça a ação do cérebro nos estados transcendentais, como fazem agora os cientistas, pode-se então dizer que certamente não existe um só homem com as funções cerebrais em dia que não tenha experimentado um estado de êxtase semelhante aos dos místicos. Lembra aquele grito de gol que você deixou sair no meio da torcida organizada de seu time? Pois é, aquela impressão de que o tempo parou e você ficou maior que o estádio, enquanto berrava, é a mesma que desde o início deste texto estamos chamando de sensação de unicidade. E aquele arrepio que tomou conta de você ao cantar o hino nacional na passeata de seu partido? Até quando você dança ou escuta um discurso patriótico - enfim, quando está diante de algum recurso que desperte o sistema límbico - é possível entrar em transe suave e sentir pelo menos parcialmente o que os místicos costumam vivenciar quando buscam Deus. Newberg e Aquili estudaram essas variantes e concluíram que isso acontece com pessoas absolutamente saudáveis. Os portadores de psicoses, como os esquizofrênicos, podem até entrar em transe, ter visões e ouvir vozes mas, nesse caso, segundo os pesquisadores, o fenômeno, relacionado a processos obsessivos, é repetitivo e torturante e não espontâneo e criativo como ocorre nas experiências místicas.
Os eventos místicos acontecem numa escala que vai da resistência a qualquer alteração da consciência aos momentos de pico, nos quais o indivíduo perde totalmente a noção do ego. A maioria dos praticantes encontra-se no meio desse continuum. "Nem todos os meditadores alcançam o estado de unicidade", ressalta Robert Formam, especialista em religiões comparadas do Hunter College de Nova York. "E isso sugere que algumas pessoas podem ser geneticamente predispostas à experiência espiritual". Segundo Forman, tais indivíduos, na maioria das vezes, se mostram mais abertos a inovações e apresentam um grau maior de tolerância com a ambigüidade e a incerteza. Têm também mais dificuldade em distinguir o que é imaginação do que é real, acrescenta David Wullf.
Ao apresentar com mais clareza a conexão entre cérebro e espiritualidade, a ciência dá um salto adiante também na compreensão dos mitos, os elementos imaginários que em todas as épocas nortearam as religiões e a organização social (veja a matéria seguinte). A existência de um lobo parietal desenvolvido no cérebro dos humanos foi fundamental para a emergência da mitologia. É nessa área que está a estrutura neurológica que proporciona a noção de causalidade e oposição, bem como o centro da linguagem, ambos necessários à formação da narrativa mítica. Um chimpazé, que possui um lobo parietal rudimentar, é hábil para dominar alguns conceitos matemáticos e manifestações de linguagem não verbal. Mas incapaz de formular pensamentos abstratos, aqueles que conduzem à arte, à tecnologia e aos mitos.
OK. Então não há mais dúvida de que o funcionamento do cérebro explica toda a fenomenologia que, ao longo de milênios, o homem tem atribuído aos deuses e outras forças imponderáveis, certo? Não é bem assim. Na verdade, o velho enigma persiste e o que mudou são as novas possibilidades de leituras trazidas pela neuroteologia.
Proponha-se a questão a um neurofisiologista convencional, como o professor Luis Eugênio Mello, da Universidade Federal de São Paulo, e a resposta virá, taxativa: "As experiências místicas têm relação direta com o efeito placebo, que pode ser gerado por condicionamento ou por expectativa. O fato de se acreditar que alguma coisa vai acontecer acaba gerando conseqüências sobre as reações fisiológicas". Luis Eugênio não aceita que o cérebro tenha sido "meticulosamente preparado" para a experiência transcendental e acha que se temos essa percepção ela se estabeleceu "por acaso" usando áreas relevantes para outros processos neurais. Idéia semelhante têm muitos ateístas e materialistas, para os quais o denominador comum de todos aqueles fenômenos é o cérebro e nada mais.
"Não podemos dizer que eles estão errados", afirma Newberg. "Nem que estão errados os que acreditam na existência de algum tipo de interação do cérebro com algo divino". Indiscutível, a essa altura, é que todas as nossas experiências, sejam as da realidade concreta ou as místicas, ocorrem em nossa estrutura cerebral. A neuroteologia, no entanto, levanta suspeitas sobre o que poderia ser uma dimensão da consciência além dos lobos e feixes de neurônios, a partir da constatação de que a consciência persiste quando o indivíduo perde a noção do "eu" e os sentidos deixam de funcionar. O fato de as experiências espirituais serem associadas à atividade neuronial não quer dizer necessariamente que tais experiências são meras ilusões neurológicas, segundo Newberg, mas certamente que a engrenagem cerebral possui um mecanismo para a transcendência. "A questão central é determinar se a atividade neurológica associada à experiência espiritual significa que o cérebro é a causa dessa experiência ou se, em vez disso, está percebendo uma realidade além do corpo", acrescenta o cientista.
Apesar da interação entre o sagrado e o laboratório nos dias atuais, ainda por muito tempo ciência e religião acenarão com explicações exclusivas ao se debruçarem sobre o cérebro e os fenômenos transcendentais. Até que se alcance o consenso, só a fé, numa teoria ou num dogma, será capaz de responder se foi a maquinaria cerebral que criou Deus ou se Deus criou o cérebro para que o homem pudesse percebê-lo.
PARA SABER MAIS
Na Livraria:
Why God won´t go away, Andrew Newberg e Eugene D´Aquili, Ballantine Books, Nova York, EUA, 2001
Religion Explained, Pascal Boyer, Basic Books, Nova York, EUA, 2001
O Universo Autoconsciente, Amit Goswami, Rosa dos Tempos, Rio de Janeiro, 2001
O Tao da Física, Fritjof Capra, Cultrix, São Paulo, 1999

Texto publicado na revista Super  de agosto de 2002