Contamos com 
a sua parceria
 
 
 
 

Planeta Jota é um site independente com olhar diferenciado sobre temas essenciais.

Se você gosta de nossos conteúdos, doe qualquer valor e ajude-nos a prosseguir com este projeto iniciado há 23 anos.
A cada doação você ganha um livro digital
do acervo do Livreiro Sapiens.

Obrigado por sua colaboração.

 
Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
vitrine pj
tv sapiens



OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
DOIS MUNDOS
Sob a cultura do medo, perdemos a capacidade de descobrir nos efeitos os seus reais motivos. Quando isso acontece, só a sombra se sobressai
Os jornais e, sobretudo, a televisão rotularam de “dramática” a semana que passou. Dramático, no caso, quer dizer sinistro, terrível, algo marcado por catástrofe.

Lá fora a semana começou com a reaparição do terrorismo nos Estados Unidos. Aqui, nossas manchetes continuaram a jorrar explosões, arrastões, chacinas, grupos de extermínio e, claro, os velhos crimes do “colarinho branco”, aqueles praticados por gente engravatada e seus cúmplices na rapinagem de recursos públicos, cujos efeitos sobre os mais pobres são tão mortais quanto golpes de faca e tiros de revólver.

Dramático, no caso da semana passada, pode também ter uma conotação teatral e cinematográfica, afinal refere-se ao espetáculo da violência a que nos acostumaram a mídia e todos os interesses, políticos e econômicos, que se aproveitam da cultura do medo e da permanente catarse da massa.

Lá fora, uma região metropolitana de quatro milhões de habitantes foi paralisada por quase 48 horas e teve até o seu espaço aéreo fechado devido à caçada espalhafatosa a dois jovens loucos. Operação de guerra e cerca de 200 tiros disparados enquanto os cidadãos comuns tremiam de pavor ante o iminente fim do mundo.

Aqui, as imagens de cadáveres, a face dos sanguinários capturados, quase sempre pobres, e a histeria dos apresentadores na telinha, seguiram mergulhando-nos num interminável filme de ação em que berros e excesso de adrenalina não nos deixam ir além das reações espasmódicas, sempre incapazes de relacionar causa e consequência.

Quantos bilhões de dólares serão adicionados, a partir de  agora, ao orçamento da estrutura antiterror dos Estados Unidos? Quanto o governo brasileiro gastará a mais na segurança da Copa, das Olimpíadas, da visita do papa...? Quanto milhões de cercas elétricas, de armas, de câmeras serão vendidas a mais? Quanta gente olhará mais desconfiada para o próximo, evitará um sorriso e exibirá seu lado rude porque o mundo - aqui e lá fora - está em chamas?

Não, este artigo não é uma peça a favor do terrorismo e nem da violência urbana. É só um pálido registro do nonsense e dos erros que cometemos quando, sob a cultura do medo, perdemos a capacidade de descobrir nos efeitos os seus reais motivos. Quando isso acontece, só a sombra se sobressai e, encurralados, esquecemos que toda escuridão só se dissolve na luz, também intrínseca à condição humana.

Na semana passada, enquanto a loucura dos irmãos Tsarnaev levou a maioria a tremer e a cerrar o punho, caminhando na madrugada do Recife, a 27ª cidade mais  violenta do país, surpreendi-me ao encontrar outros jovens abraçando e alimentando mendigos, ouvindo-lhe as dores e cantando com eles. “Deixei as drogas e parei de roubar por causa desses meninos”, disse-me um dos assistidos. Então, eu percebi: o mundo pode estar em chamas, mas não está perdido.
[Publicado na edição de 23/04/13 do Novo Jornal]
Clique e deixe seu comentário no
Fórum dos Leitores do Planeta Jota