Contamos com 
a sua parceria
 
 
 
 

Planeta Jota é um site independente com olhar diferenciado sobre temas essenciais.

Se você gosta de nossos conteúdos, doe qualquer valor e ajude-nos a prosseguir com este projeto iniciado há 23 anos.
A cada doação você ganha um livro digital
do acervo do Livreiro Sapiens.

Obrigado por sua colaboração.

 
Ano 23                                                                                                              Editado por Jomar Morais
vitrine pj
tv sapiens



OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
 
METAMORFOSE
Ninguém é hoje a pessoa que era há alguns anos. Na verdade,
ninguém é hoje a mesma pessoa que foi ontem 
Durante quatro décadas escrevi textos que, reunidos, resultariam, talvez, em um volume do tamanho da Bíblia. A maioria é reportagem, relatos de acontecimentos e sua interpretação. Mas há também ensaios, comentários, crônicas - peças nas quais minha alma e minha visão de mundo aparecem sem disfarces em considerações sobre fatos, idéias e pessoas. Resta pouco dessa produção em meu arquivo. São textos publicados em jornais e revistas nacionais em que atuei - “O Estado de S. Paulo”, “Folha de S. Paulo”, “Jornal do Brasil”, “Veja”, “Exame”, “Istoé”, “Superinteressante” e “Viagem e Turismo” - e algumas páginas que assinei, antes dessa etapa, no “Diário de Natal” e na “Tribuna do Norte”. Essas relíquias integram o que, durante anos, considerei o melhor de minha saga jornalística. Textos que ecoaram de norte a sul e, em algumas ocasiões, agitaram o cenário nacional. Crias lambidas com carinho e orgulho.

A questão é que hoje, ao manusear as páginas amareladas, quase não me vejo nelas. Essa percepção é nítida nos recortes que me arrastam às profundezas do passado, enevoada nos textos mais recentes. Seja como for, reler o que escrevi me faz perceber o óbvio: não sou mais a mesma pessoa. Não é milagre nem enlouqueci. É lei da natureza. Ninguém é hoje a pessoa que era há alguns anos. Na verdade, ninguém é hoje a mesma pessoa que foi ontem.

Nem sempre essa percepção é clara - e, nesse caso, revirar as gavetas e rever velhos registros nos ajuda a dissolver a bruma dentro da qual imaginamos uma auto-referência fixa e imutável. A cultura, ela própria mutante, e os conceitos a que nos apegamos reforçam essa ilusão, cujo preço pode ser o sofrimento de tentar conter o fluxo da vida e seu impulso criativo.
Quem sou eu? Eis a pergunta que não tem resposta. Quando o imperador chinês Wu perguntou ao monge budista Bodhidarma “quem é você?”, ele, de pronto, respondeu: “Não tenho a menor idéia”. Em seu lugar, certamente teríamos sacado a cédula de identidade ou o currículo, mas isso é próprio da soberba dos ignorantes.

É possível dizer o que não somos. Até hoje, porém, nenhuma ciência, filosofia ou religião nos forneceu elementos para afirmamos o que somos. No máximo, construímos metáforas que aliviam nossa perplexidade, como a representação do ser por uma chama, que persiste sem jamais ser a mesma, ou um prisma, através do qual a luz infinita da consciência se desdobra em múltiplos aspectos.
A experiência descerra véus e abre canais por onde, a cada instante, formas temporárias expressam as incontáveis possibilidades de uma mesma essência desconhecida. E é assim que se estrutura o conhecimento, com a verdade saltando de dentro para fora na medida que interagimos na rede universal. Ter consciência disso faz uma enorme diferença no modo como lidamos com as nossas limitações e metamorfoses. Sobretudo, muda a qualidade de nossas relações com a diferença do próximo. A compaixão emerge quando percebemos e aceitamos a diversidade e o eterno movimento da vida.
[Publicado na edição de 09/11/10 do Novo Jornal]
Clique e deixe seu comentário no
Fórum dos Leitores do Planeta Jota