Ano 25                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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                      por ALDENIR DANTAS

           (À memória de David Cunha, o Espanta.)


No geral, aquele povo de Mericó era uma gente simples, solidária e consciente das próprias limitações e dificuldades. No entanto, como bem sabemos, a homogeneidade, em qualquer agrupamento humano, é coisa rara.  Assim, Marilu, chamada às escondidas de “funcionário público”, andava na boca do povo como aquela que “só queria ser o que não era”.

Já o seu marido, Raimundinho, era uma pessoa simpática, alegre, prestativa, cativada por todos. Na sua atividade, de varrer e coletar o lixo da rua, frequentemente era convidado pelas donas de casa para um lanchinho, um cafezinho, em agradecimento pelo seu meticuloso trabalho, sua gentileza e solicitude.

Marilu, a contrário, era, como se dizia, “cheia de nós pelas costas”, além de ter “espírito de rico”. Um dos motivos de orgulhar-se era o fato do marido ser funcionário da prefeitura. Naquela cidade, ter um emprego, por mais simples que fosse, significava muito. A maioria das pessoas não tinha renda certa, vivia de trabalhar alugado, prestar serviços aqui ou ali e das incertezas de uma agricultura rudimentar.

E assim, sempre que, em conversa com ela, alguém se referia a dificuldades financeiras, carestia, etc. sua resposta era a mesma:

- Graça a Deus, meu marido é funcionário público, por isso...

De tão repetida, e igualmente incômoda, sua cantilena transformou-se em alcunha. Mas ninguém se atrevia a mencioná-la em sua presença, apenas à distância:

- Ih! lá vem funcionário público!

Um dos prazeres de Marilu era sentar na calçada, no fim da tarde, e conversar com as vizinhas. Além de comentar a vida alheia, usava e abusava da sua condição de mulher de funcionário público para tripudiar sobre as demais.

Numa dessas conversas, intrigando-se com a vizinha, com quem tinha grande amizade. O assunto era perfume, quando a amiga falou:

- Zé, meu marido, trouxe um loção pra mim da feira, tão bonzim! O nome é Parisiana.

- Graças a Deus, meu marido é funcionário público e eu só compro essas coisas na Avon. Aquilo, sim, é que é perfume!

- E esse que esse que Zé comprou, é o que?

- Ah, minha filha, isso aí é perfume de bactéria!

- É purisso isso que todo mundo na rua chama tu de besta! Sei nem o que bactéria, mas qué sabê duma coisa? Bactéria é a sua avó! É isso!

O bate-boca esquentou em torno da bactéria, que nenhuma das duas sabia o que era. O resultado foi uma inimizade, daquelas que, na época, chamavam “intriga de ponta de faca”.

Passados alguns meses, as duas engravidaram, na mesma época. Primeiro filho, muita alegria, muita conversa e a intriga se desfez. Contudo, ainda magoada, a amiga afrontada aproveitou uma das conversas na calçada para a desforra:

- Os padrin do meu menino, a gente já escolheu: Vai ser o prefeito e a mulhé dele. - Falou e focou o olhar na vizinha, para ver seu descontentamento, pois, da duas uma: ou iria invejá-la e convidar o prefeito para apadrinhar o filho, ou iria ficar pra trás, por não haver ninguém mais importante na cidade.

A provocação funcionou. Por vários dias, alegando indisposição, Marilu não participou da conversa da calçada. Contundo, ao voltar, mostrou-se mais altaneira do que nunca. E para não perder tempo, foi logo apresentando a maior carta que o baralho do jogo em andamento poderia ter:

- Pois é, meu marido...

- Que é funcionário público. -  Completou uma das presentes.

Ignorando a ironia, Marilu continuou:

- É... Ele não queria aceitar a minha escolha, mas acabou aceitando. O padrinho do meu menino vai ser John Kennedy.

- E quem é esse? Nunca ouvi falar...

- Mulher, não você não escuta rádio não, é? É o presidente dos Estados Unidos. Mora muito longe, no estrangeiro.

Após sorrisos disfarçados e olhares atravessados, dona Zefa, a mais velha do grupo, que não tinha papas na língua, perguntou:

- Ô mulé, tu tais doida, é? Como diacho esse home vai sê padrin do teu fí, morano lá no fim do mundo? O home num sabe nem que tu existe!

Marilu explicou tudo direitinho. Perguntara a Zé Andrade, funcionário da prefeitura, rapaz muito inteligente, qual era a pessoa que ele julgava ser a mais importante no mundo. Respondeu ele que eram o Papa e o Presidente dos Estados Unidos. Sobre a possibilidade do presidente ser padrinho do seu filho, disse ele que poderia enviar uma carta para a embaixada e era só aguardar a resposta. E assim foi feito.

A história pareceu tão estapafúrdia, que ninguém mais se interessou em comentá-la.

Chegado o dia do batizado, em agosto de 1963, restava apenas a curiosidade sobre quem seria o padrinho do menino. A primeira vista, acharam que seria o prefeito. Estavam, ele e a esposa, presentes à cerimônia. Contudo, a partir de um esclarecimento do padre, compreenderam a situação.

A missiva de Zé Andrade chegara ao destino e a resposta veio através de uma espécie de efeito cascata. Inicialmente, o presidente norte americano nomeou o seu embaixador no Brasil para representá-lo na cerimônia. O embaixador repassou o encargo para uma autoridade do Rio Grande do Norte e, esta, para o prefeito de Mericó. Enfim, o sonho de Marilu se concretizara.

Doravante, Marilu passou a se inteirar acerca dos fatos em torno dos padrinhos do seu filho e compartilhá-los com as vizinhas, entediadas com aquelas notícias que não lhes interessavam.  

Passado um mês, o mundo tomou conhecimento do assassinato de John Fitzgerald Kennedy. Grande dor se apossou do coração de Marilu. Inconsolável com o ocorrido, vizinhas e amigas se empenharam em consolá-la com palavras de conforto, chás e conselhos, mas nada fazia efeito.

Chegado o domingo, alguém narrou o ocorrido ao padre e este, após a missa, dirigiu-se à casa da paroquiana para uma conversa. Encontrando-a deitada, com os olhos inchados de chorar, falou:

- Minha filha, eu sei que ele é padrinho do seu filho. Mas você ficar assim pela morte de um homem lá do fim do mundo, que você nem conhece pessoalmente.

- Seu padre, mas não é tanto por causa dele que tô assim...

- E por que é, então, minha filha? Diga, pelo amor de Deus!

- É só de imaginar o sofrimento de Cumade Jaqueline.


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