Ano 26                                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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por Jomar Morais
 
É O AMOR...
O amor é uno, porém diverso em sua manifestação. Tem estágios que
se sucedem e, ao mesmo tempo, coexistem, colorindo a jornada humana
com pinceladas de dor e júbilo até a perfeita serenidade
 
No Dia de Natal deparei na Internet com um artigo que anunciava: “Jesus fracassou”. No primeiro momento, fiquei triste. Não pelo comentário em si, uma livre manifestação de pensamento, mas por se tratar de um texto assinado por um querido amigo, jornalista brilhante, pai amoroso, coração generoso e justo. Para mim, o fracasso de Jesus seria o fracasso do amor, pois não há outro objetivo em sua missão. Teria o meu dileto amigo, recém-convertido ao ateísmo, também perdido a fé no amor e na compaixão? Acredito que não.

A releitura de seus argumentos levou-me a admitir que muita gente, incomodada com o barulho das injustiças e da vilania, poderia endossar o seu artigo. O mal é ruidoso e, na atualidade, o eco proporcionado pela mídia pode lhe dar ares de triunfo inevitável, distraindo mentes e sufocando corações na aridez dos pensamentos pessimistas. Nem sempre conseguimos perceber os pequenos e silenciosos gestos de solidariedade e renúncia das pessoas anônimas. E, no entanto, são essas incontáveis ações cotidianas, mais que a espada da lei, o esteio da ordem e da harmonia sociais.

Não há como pensar o amor em termos de sucesso e fracasso. Não há sequer como explicá-lo, por ser ele essência e experiência. O amor é lei da vida. É a própria vida. “Eu vim para cumprir a lei”, diria Jesus. O ápice de sua missão é um fracasso retumbante do ponto de vista convencional. Jesus, prisioneiro e abominado, é crucificado. Mas qual amor não conheceu, em algum momento, a crucificação?

O amor é uno, porém diverso em sua manifestação. Talvez possamos imaginá-lo em estágios que se sucedem e, ao mesmo tempo, coexistem, colorindo a jornada humana com pinceladas de dor e júbilo até a perfeita serenidade. Era assim que os antigos gregos o viam e, por isso, usavam três palavras para designá-lo, como nos lembra o filósofo André Comte-Sponville. A primeira, eros, é o amor que se instala na carência, o amor ao que nos falta, substância da paixão, arrebatadora e violenta, que quer possuir e conservar. É o amor sofrido e infeliz dos amantes. A ele se contrapõe philia, o amor ao que temos e ao que fazemos, fonte do regozijo dos amigos e dos casais, um amor feliz e compartilhado. Platão e Aristóteles lidavam com esses conceitos.

A terceira palavra - agapé, o ágape - só surgiria mais tarde, quando Paulo e os primeiros discípulos de Jesus difundiram sua visão essencial do amor: Deus é amor... Amar o próximo como a si mesmo... Amar os inimigos... Eram expressões então estranhas em todas as línguas. Ágape, ou caritas (caridade) em latim, é o amor ao que nem nos faz falta nem nos faz bem, a quem não é nem amante nem amigo. É o amor em pura perda. O amor incondicional.

Seja qual for o aspecto manifestado, o amor está por trás de todos os nossos atos enquanto optamos pela vida, é o elo que nos une aos objetos. Se isso nos deixa feliz ou infeliz, a explicação é dada pelo filósofo Spinoza: “a que tipo de objeto estamos presos pelo amor?” Como ágape, o amor nos aprisiona à fonte mesma da vida, ao amor em si (a Deus), ponto de interseção que torna possível todos os amores conhecidos e imaginados.
[Publicado na edição de 04/01/11 do Novo Jornal]
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