Ano 26                                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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por Jomar Morais
Autoestima significa amor próprio, valorização de si mesmo. Com boa vontade podemos admitir que o termo expressa autoaceitação, algo indispensável ao equilíbrio psicológico de qualquer humano. No dia a dia, porém, a palavra diz mais que isso - e no mau sentido. A autoestima é um instrumento de tortura de bilhões de pessoas que a teriam em nível abaixo da “normalidade” e para seus familiares interessados em enquadrá-las nas expectativas da sociedade. E é a galinha de ovos de ouro dos negócios dos psiquiatras, psicólogos, terapeutas, a indústria farmacêutica e, claro, vendedores de milagres e escritores de autoajuda.

Sempre que ouço alguém falar em autoestima (inclusive eu mesmo), lembro da cena patética que envolveu Tenzin Gyatso, o atual Dalai Lama, em um de seus primeiros seminários de divulgação do Budismo nos Estados Unidos. Como esperado numa sociedade ultracompetitiva, que impõe papéis e metas draconianas às pessoas, logo alguém aparteou o palestrante para saber o que fazer com o seu problema de baixa autoestima. O Dalai, perplexo, permaneceu em silêncio. O tradutor ainda tentou explicar-lhe a pergunta, mas, minutos depois, anunciou à platéia: “Sua santidade esclarece que desconhece esse conceito”.

Autoestima é coisa de ocidental, de nossa cultura que, inspirada em filósofos como Descartes, Hume e Kant, estabelece uma separação entre o eu e o mundo, embora as descobertas da ciência e o resgate do pensamento holístico já estejam alterando esse quadro. Para a maioria dos orientais, seguidores de tradições monistas, não há sentido em se falar em autoestima se a realidade é a interdependência de todos os seres, se nada existe por si mesmo.

Diante de alguém à beira de um ataque de nervos devido a conflitos íntimos, a resposta de um mestre tibetano seria muito provavelmente “vire-se para a parede e se encontre”. Isto é: sente-se e medite até perceber a natureza ilusória de seus problemas, os quais se dissolvem com uma mera mudança de perspectiva.

Talvez você rebata que “nós não somos budistas tibetanos”. Neste caso, resta-lhe o consolo do Mágico de Oz ao encontrar os amigos de Dorothy que se queixam de suas limitações, sintetizado num post de Paulo Nogueira em seu Diário do Centro do Mundo, na Internet:

“Um deles se acha burro. Diz o mágico: ‘Em minha terra as pessoas não são mais inteligentes que você. Mas tem uma coisa que você não tem. Um diploma.’ E então passa ao infeliz um diploma, que prontamente eleva sua autoestima. Outro lamenta ser covarde. Diz o mágico: ‘Em minha terra as pessoas não são mais corajosas que você. Mas têm uma coisa que você não tem. Uma medalha.’ E então passa ao infeliz uma medalha, que prontamente eleva sua autoestima”.

Isso não cura a carência sem fundo, mas distrai e alivia.
AUTOESTIMA. QUE BICHO É ESSE?
Não há sentido falar-se em autoestima se a realidade é a interdependência
de todos os seres, se nada existe por si mesmo
[Publicado na edição de 30/10/12 do Novo Jornal]

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