Ano 26                                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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por Jomar Morais
PARA ONDE VAI O CASAMENTO?
A lei é para assegurar direitos da pessoa e do cidadão. O amor, e a
felicidade que dele decorre, dispensam garantias
Vi na novela das nove um homem casando com três mulheres. Minhas avós, se ainda vivas, teriam logo trocado o canal, horrorizadas. Meus avôs materno e paterno, mulherengos que acabaram implodindo seus casamentos, certamente se permitiriam um sorriso disfarçado, mas igualmente teriam acionado o controle remoto em defesa da moral e da tradição. No entanto, na minha sala e, penso, nas de milhões de brasileiros, os que seguem vivos assistiram à cena com bom humor e gargalhadas, esquecendo-a, minutos depois, sob a cascata de imagens com que a TV embala o nosso tédio.

Vi no telejornal da noite alguns casamentos gays, com direito a olhares cúmplices e beijinhos na boca entre homens e entre mulheres. E vi na revista eletrônica do domingo crianças cujas certidões de nascimento exibem os nomes de dois pais ou duas mães falando sobre a relação em casa e a reação dos amigos à especificidade de suas famílias.

Vi na televisão e no dia a dia do mundo real casais em seu terceiro ou quarto matrimônios formando aglomerados em que filhos e pais de uniões passadas, e mesmo de encontros fortuitos, se arrumam e se experimentam sem levarem consigo a marca preconceituosa de bastardos ou agregados. Vi homens e mulheres forjando modelos de vida a dois ou em grupo, dentro ou fora da lei, em desafios a um dos pilares mais sólidos da civilização.

Bom, minhas avós e meus avôs ficariam ruborizados ante esse quadro audacioso, mas a verdade é que, em substância, não estamos diante de fatos novos e sim de uma nova interpretação e de uma nova sanção coletiva que geram dispositivos legais garantidores de situações até há pouco não reconhecidas. A começar pela Bíblia, a literatura e os registros históricos estão repletos de relatos sobre concubinas, poligamia, filhos bastardos e relacionamentos não convencionais em que a sorte dos partícipes sempre dependeu do humor dos poderosos envolvidos e não do senso de justiça e dos direitos relacionados à dignidade humana.

Como toda instituição, a do casamento está sujeita a mutações que expressam o dinamismo da vida e em cada época é moldada pela visão de mundo predominante numa determinada cultura. Compare-se, por exemplo, o papel e os direitos da mulher na antiga família patriarcal brasileira e na atual e se verá o tamanho e a profundidade da evolução do casamento.

A exemplo do passado, porém, hoje e amanhã a qualidade e a estabilidade das relações íntimas não dependem e nem dependerão de leis ou normas não escritas, mas do sentimento inexplicável do amor e de seus frutos inevitáveis, como o carinho, a dedicação, a parceria e também a tolerância e a capacidade de renúncia. A lei é para assegurar direitos da pessoa e do cidadão. O amor, e a felicidade que dele decorre, dispensam garantias
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[Publicado na edição de 23/10/12 do Novo Jornal]
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