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por Jomar Morais
 
CIDADANIA REATIVA
Cedo ou tarde, com ou sem Internet, as passeatas se recolherão e o mundo novo envelhecerá se, como indivíduos, continuarmos a ver apenas o próprio umbigo.
 
As “primaveras” políticas que se espalham pelo planeta, com manifestações populares gigantescas catalisadas a partir das redes sociais, serão alvo de estudos por muitos anos, talvez séculos, como um momento singular da humanidade. Nunca antes na história do mundo foi possível mobilizar tanta gente de um jeito anárquico, sem líderes consagrados, à revelia e, sobretudo, contra o aparato institucional da democracia representativa, no qual os partidos ocupam um lugar de destaque. Para onde vamos? Ainda não sabemos.

No futuro, certamente, milhões de gigabytes serão necessários para arquivar tantas teses e monografias sobre o que acontece hoje diante de nossos olhos. Mas daqui, desse espaço modesto e nada acadêmico, eu arrisco um palpite para os mestres e doutores que irão explicar o fenômeno: apenas o componente tecnológico da Internet, com o seu poder fantástico de aglutinar pessoas, é fator inédito e inovador na transição atual.

Os registros históricos comprovam que todas as rupturas políticas aconteceram com povo nas ruas e espasmos emocionais, em eventos mais ou menos administráveis. Nas revoluções, o caos sempre precede a nova ordem. As crises sociais, como a dos indivíduos, são as dores do parto de novas possibilidades.

Foi sempre assim na saga da civilização e, imagino, assim continuará, a menos que nos demos conta de um detalhe que influencia todo o resto: até aqui, multidões nas ruas sempre protagonizaram movimentos reativos. Os brados das passeatas e a violência dos levantes são respostas dos indivíduos ao que lhes foi oferecido antes e aceito passivamente enquanto, abdicando de seus deveres, eles se mantinham entretidos com projetos egoísticos e a omissão interesseira.

Temos aí um dado ideológico e uma crença básica que há de sabotar toda utopia, até que percebamos o óbvio: jamais haverá sociedade honesta se eu não for honesto nas coisas triviais; não haverá sociedade solidária se eu não for solidário com o irmão mais próximo; não haverá governantes íntegros se eu não ensinar integridade ao meu filho; não haverá sociedade participativa, se eu não participar na escola, na igreja, no sindicato, na ong e, vá lá, no partido político (ou algo que venha a substituí-lo), ajudando na definição de valores, prioridades e, principalmente, carregando pianos na rotina das ações.

Até aqui as manifestações reativas foram indispensáveis para desintegrar velhas estruturas. Mas é legítimo que, a essa altura, queiramos mais que um movimento de manada, passional como toda explosão de raiva. O sonho exige uma postura ativa. Um pouco mais até: proativa, com permanente criatividade e partilha.

Cedo ou tarde, com ou sem Internet, as passeatas se recolherão e o mundo novo logo envelhecerá se, como indivíduos, continuarmos a focar apenas o próprio umbigo.
 
[Publicado na edição do Novo Jornal de 02/07/13]
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