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por Jomar Morais
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Dias atrás fui chamado a comentar a afirmação de Jesus sobre a necessidade que se pode ter de deixar pai, mãe... a família para seguir na trilha espiritual. São palavras que chocam muitos cristãos, os quais veem aí uma contradição do mestre que pregou o amor.

Talvez isso soe mais estranho agora do que há dois mil anos, já que a família nuclear, mesmo fragilizada, é refúgio das pessoas numa civilização guiada pelo individualismo e o egoísmo. Também nesse caso, tais males nos afastam da clareza e da compreensão.

A afirmação do Cristo é o ápice de uma conversa que começa com a interpelação do jovem rico e tem por motivação o ensino do desapego e da entrega de nossa vida à vida (a Deus), a fim de seguirmos na liberdade do espírito. É uma dica de crescimento pessoal para a felicidade de servir.

O moço rico quer saber o caminho das pedras para entrar no Reino dos Céus e Jesus enumera não mais que cinco mandamentos do decálogo de Moisés relacionados à convivência em sociedade, entre os quais não roubar, não matar e honrar pai e mãe. Não é preciso muito para tornar-se um homem de bem e, assim, sentir-se no Reino. Basta ser honesto e cumprir os deveres convencionais. Mas o jovem rebate que isso ele já fazia, levando Jesus a apresentar-lhe a receita para quem quer ir além da rotina, afirmando-se como co-criador: “Então, vai, vende o que tens, distribui o resultado com o pobres e segue-me”.

Segundo o Evangelho, o jovem, entristecido, sumiu. O mestre, então, aproveita o momento para falar da dificuldade espiritual de quem se apega à riqueza (isto é, ao que tem) e esclarece que a realização espiritual inclui uma atitude desapegada inclusive em relação aos nossos afetos, como a família.

Trata-se de uma opção entre caminhar ou ficar parado. Quem tem um longo caminho pela frente não deve apegar-se a muita bagagem. Como nos lembra o filósofo hesicasta Jean-Yves Leloup, “o caminhar nos ensina a viver de maneira leve”.

Isso vale do ponto de vista material e também do psicológico. Não se avança sem deixar para trás alguns conceitos, crenças, imagens e fixações. Ou seja, em algum momento, a voz do espírito nos repetirá as palavras ditas a Abrahão - “deixa teu país, teus pais, a casa de teus pais e vai para a terra que eu te indicar” - e até pode nos pedir para sacrificar o “filho”, aquilo a que mais nos apegamos.

É a travessia do conhecido para o desconhecido, difícil para quase todos, terrível para a maioria. Avançar na escuridão da própria alma para alcançarmos a verdade da forma mais segura: sendo verdadeiros.

Leloup nos lembra que, em nenhum momento, Jesus afirma ter a verdade. “Eu sou a verdade”, disse o mestre. Ao longo dos séculos, paralisados em seus dogmas, os que se sentem “donos” da verdade promovem guerra e dor, apegados às suas posses. Já os que caminham desapegados, enquanto avançam reconhecem ter menos a verdade, embora, sendo mais verdadeiros, tenham se tornado agentes do amor em seu eterno fluir.

                                  [ Publicado na edição do Novo Jornal de 14/07/15 ]

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