Ano 26                                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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por Jomar Morais
O feriadão acabou, seria natural agora se todos os rostos exibissem sinais de relaxamento e satisfação. Mas basta olhar em torno de nós ou dar uma espiada no espelho para constatarmos: continuamos tensos e exauridos. O que tivemos no feriadão? Atividade, muita atividade, incessante atividade. O agito das baladas e raves, o trabalho do escritório levado para casa, o “bico” sazonal para reforçar a renda, a ação beneficente voluntária... Não importa. No final, chega-se ao mesmo efeito sobre o corpo e a alma: estresse.

Mergulhados na agitação, perdemos o ritmo entre trabalho e repouso. Passamos a trafegar na contramão da vida. O ritmo que descartamos é o que está presente na alternância entre o dia e a noite, no movimento das marés, no intervalo das batidas do coração...

A ação exige o comparecimento da pausa para que se dê a contradança, expressão de harmonia e equilíbrio. Nossa cultura da acumulação, no entanto, diz que fazer alguma coisa - qualquer coisa! - é sempre melhor e mais produtivo do que não fazer nada e, assim, nos afasta da quietude e do descanso real. Estar sempre ocupado, muito ocupado, virou um sinal de inclusão social. A recompensa? Mais dinheiro, mais reconhecimento, mais poder, mais patrimônio, quem sabe até mais amor e mais segurança. Mais, mais, mais.

Engano, ilusão. Como lembra Wayne Muller, autor do livro “Sabbath”, mesmo quando as intenções são nobres e os esforços sinceros, mesmo quando dedicamos a vida a servir o próximo, a atividade excessiva e frenética inflige sofrimento a nós mesmos e aos outros. É violência consentida que fere a muitos: ao nosso corpo obrigado a operar além dos seus limites, à família para a qual já não dispomos de tempo para conviver e assistir, aos amigos que não mais recebem o retorno de suas expressões de carinho e à comunidade e ao mundo, que o medo de perder nossas posses transforma em ameaça a ser evitada, roubando-nos a chance de sermos bons e generosos.

A lógica da atividade incessante - e, erroneamente, chamamos isso de busca da felicidade - serve à inquietação da mente, que precisa ser disciplinada a fim de que tenhamos paz e possamos, de fato, desfrutar a vida. Permanecer nesse estado é cair em um pandemônio de produção e consumo inconscientes no qual perdemos as coisas essenciais e nada saboreamos plenamente.

A solução? Lembrarmo-nos do sabbath, praticarmos o sabbath. Toda sabedoria ancestral nos convida a cumprir o preceito que na tradição judaico-cristã aparece inscrito no terceiro mandamento anunciado no Sinai: santificar o sábado (sabbath), o dia do descanso e da contemplação, da imersão em si mesmo. Pausa, ócio, atenção à vida.

O sabbath é um conceito. Não é uma prisão ao calendário. É a observância do ritmo entre trabalho e repouso, ação e meditação. É equilíbrio produtivo. Como dizia Thomas Merton, “o frenesi da nossa atividade destrói a frutificação do próprio trabalho porque mata a raiz da sabedoria que torna o trabalho frutífero”.
Publicado na edição de 16/11/10
SABBATH
Mesmo quando dedicamos a vida a servir o próximo, a atividade excessiva
e frenética inflige sofrimento a nós mesmos e aos outros
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