Ano 25                                                                                                              Editado por Jomar Morais
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OUTRO OLHAR
por Jomar Morais
Sexo e poder
Falar sobre sexo e expor em público a própria intimidade não são, necessariamente, sinais de que estamos à vontade com as nossas energias
O irlandês Oscar Wilde, gênio da arte e da crítica social, escreveu: “Tudo no mundo está relacionado a sexo, exceto o próprio sexo, que está relacionado a poder”.

Em princípio, a assertiva do artista visava a era vitoriana, caracterizada por um longo período de prosperidade no Reino Unido, graças à expansão do império britânico nos quatro cantos do planeta, à euforia da Revolução Industrial e à emergência de uma vasta classe média, educada, na metrópole da rainha Vitória. Mas, pensando bem, essa é uma frase de conteúdo universal e atemporal.

Aplica-se à Antiguidade e à Idade Média, como se pode notar nos registros da história e da literatura, e encaixa-se como uma luva no mundo contemporâneo, cada vez mais hedonista e fascinado pelo poder.

Não seria exagero afirmar-se que sexo e poder constituem a segunda locomotiva social de nosso tempo. A primeira é o medo, imbatível em sua capacidade de criar “necessidades”, estimular o consumo e manter as pessoas sob controle.

Considere-se ainda que, a exemplo da Inglaterra vitoriana, vivemos um período de expansão econômica e tecnológica, com aumento da classe média e a emergência de novos ricos - e sua predisposição narcisista e exibicionista -, e logo se perceberá o pano de fundo de hipocrisia sobre o qual o sexo sempre estará relacionado ao poder e não ao amor e ao esplendor da vida.

Dos tempos de Wilde aos nossos dias muita coisa mudou na periferia das relações humanas e tabus rolaram ao impacto de revoluções nos costumes, aí incluída a chamada revolução sexual. Mas na essência continuamos atados por grilhões atávicos. No campo da sexualidade, nossa relação com o impulso e com os sentimentos continua tão desastrosa quanto no passado repressivo, em razão da persistência, ainda que disfarçada, da velha visão de sexo como transgressão.

Na impossibilidade de vivenciá-lo com entrega, inocência e respeito, algo que só o amor (e não a posse) é capaz de viabilizar, resta-nos a opção de tornar o sexo utilitário, mediante seu uso para alcançarmos algum tipo de poder - mesmo que isso não vá além da trivial exibição do parceiro ou da parceira como troféu no circuito de solidão e insegurança das rodas sociais.

Falar sobre sexo e expor em público a própria intimidade não são, necessariamente, sinais de que estamos à vontade com as nossas energias, deixando-as fluir com naturalidade. Ser “predador” ou mulher fatal não significa que estamos felizes ou centrados, mas tão somente que navegamos num mar de carências e medos.

O sexo é uma das expressões mais fortes do mistério a que chamamos vida, fonte de equilíbrio e harmonia para o indivíduo e a humanidade. Mas enquanto não aprendermos a lidar com ele com a naturalidade com que respiramos ou comemos, sua manifestação, de algum modo, sempre nos conduzirá à fraude e à frustração.
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[ Texto publicado na edição do Novo Jornal de 24/09/2013 ]
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